Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Casa pronta

que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devemo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?

domingo, 12 de setembro de 2010

O lirismo

"Que bom senso o do lirismo bucólico! O trágico é um lírico enlouquecido, como o animal é uma árvore a galope."


In "Aforismos",Teixeira de Pascoaes - selecção de M.Cesariny

domingo, 1 de agosto de 2010

Auto de notícia

As abluções domingueiras aconselham uma colheita de pensamentos originais, desalinhados, clarividentes. De uma circunspecção à prova de fogo. Por conseguinte, deveria destilar  para vós um brilhante silogismo, um naco de ironia. Uma posta de saber com provas dadas. Que se sustem à beira do abismo do auto convencimento. E porque não um voo poético de fazer inveja, uma carga certeira no bombo da festa do momento? Ou um feixe de luz para um sentido oculto? Ou até um casus belli desencantado onde ninguém esperaria? Sim, mas sem exageros. É preferível o xeque-mate numa polémica à beira da caducidade. Quando todos se preparam para a quietação do adiamento. Tudo isso. O exercício manso em modo de austeridade virtual. O mantra cibernético. A erudição prostituída. O cheirinho a obscuridade. Só porque sim. Ou porque não. A solidão entreaberta, desfeita e refeita. Contudo, por mais que tente, tudo redunda numa alquimia que não sai. Que se tornou improvável. Porque basta estender a mão e respirar.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Da vida dos insectos

Tenham medo! Andam por aí uns "intelectuais ateus" a cirandar pelo Facebook e blogosfera, galvanizados com as intervenções anti-clericais e cripto-teológicas do autor de "Levantado do Chão". Que muito em breve se transformará em S. Saramago, cumprindo a hagiografia particular dos comunistas e capelinhas afins.
A rapaziada oficiante até parece engasgada com tamanha excitação idolátrica! Calma, pessoal! Bebam água! Simples, claro. Nada de bentices nem bentunços! A malta é ateia! Todavia, tamanho frenesim, observado à lupa, revelará um microcosmo surpreendente para tanta euforia: o ressentimentozinho social, a arrogância dos pequenos e médios aspirantes a pensadores, a faustosa ignorância, a pequenez engraçadista, a incapacidade de ser compassivo,  de entender os outros... No meio de tudo isto, não me surpreenderia se lá encontrasse simplesmente tédio...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bricolage surreal

Caros(as) amigos(as), a vida é cheia de surpresas. Esqueçam o "querido, mudei a casa!" O modelo está esgotado... Até mesmo se a frase for levada à letra. O que, conforme demonstram alguns programas do Discovery Channel, nem é difícil, desde que apareçam as roldanas e os dispositivos rolantes apropriados. Segredos bem conhecidos dos antigos egípcios, é sabido. Sobretudo quando deslocavam blocos de pedra maciços, com várias toneladas, dos barcos para os locais de construção, a vários quilómetros de distância. E não consta que os faraós fossem grandes apreciadores de decoração instantânea. Por outro lado, o mito urbano do canalizador polaco já teve melhores dias. Argumentos non sequitur, já vos oiço dizer. Peço-vos um pouco de paciência, caros(as) leitores(as). O episódio que vos quero relatar é de tal forma absurdo que nem o Mc Gyver algum dia sonhou deparar-se com ele. E muito menos resolve-lo. O caso é que, anteontem, ao dar conta do estado de funcionamento de um apartamento que me foi entregue, verifiquei que o reservatório do autoclismo não vedava. Pelo que a água não parava de escorrer. De imediato, desmontei a tampa do depósito, do género incrustado na parede. Não demorei a perceber que a borracha, no fundo, embatia num objecto metálico, impedindo assim que estancasse a água. Fechei a torneira geral e voltei pouco depois, munido de uma generosa caixa de ferramenta, um pequeno espelho e uma pilha. Comecei por desmontar o mecanismo fixo, que acciona o tubo de plástico com a borracha ao fundo. E cujo movimento de vai vem, como um êmbolo, abre a fecha o fluxo de água descendente. Sem obstáculos, introduzi a pilha na concavidade da parede, com o espelho por cima, a fazer de periscópio. Qual não é o meu espanto quando vislumbrei o que estava no fundo: duas facas! Exactamente, leram bem. Recomposto da surpresa, imaginei logo um plano B. Saí novamente, para ir ao carro buscar uma coluna de som avariada, que tinha substituído no dia anterior. Em seguida, desmantelei-a, afim de extrair o precioso íman. Retirei também um resto de fio eléctrico que ficara ligado à ex-coluna. Com um alicate de corte, perfurei o invólucro de latão que rodeava o íman e nele atei uma ponta do fio. No final, introduzi o íman no reservatório e manobrei o fio que o prendia, por diversas vezes, até sentir cada uma das facas "colada" ao íman. Puxando-a depois cuidadosamente até à abertura. E foi assim que resgatei os dois objectos metálicos. Após o que montei novamente o mecanismo. Tendo verificado então que o dispositivo, desta forma expurgado dos "intrusos", funcionava razoavelmente. 
Conclusão: as coisas valem o que valem, é tudo uma questão de ferramenta.

A ambição

O poeta é um fingidor. Porque o desencanto nunca é filosófico, mas poético. Porque apenas a poesia é capaz de representar as contradições sem as resolver, compondo-as numa unidade superior, elusiva e musical. Enquanto esse desencanto, ao mesmo tempo que corrige a utopia, moderando o seu pathos profético e finalista, reforça o seu elemento fundamental, a esperança. Pois que a esperança não nasce de uma visão do mundo tranquilizadora e optimista, mas sim da dilaceração da existência. Vivida e sofrida sem véus. Que cria uma irreprimível necessidade de resgate perante o mal. O mal que é simplesmente a radical insensatez com que se apresenta o mundo. A mesma que exige que a perscrutemos em profundidade. O poeta é um fingidor, nada mais. Porque não hesita em denunciar uma ferida profunda que lhe coloca dificuldades na realização plena. Tanto mais que "ambicionar viver é coisa de megalómanos", como escreveu Ibsen. Querendo com isto talvez dizer que só a consciência do árduo e temerário que é aspirar à vida autêntica pode permitir que nos aproximemos dela. Tão completamente que até parece dor a limalha irisada que nos cobre, nesse momento. Como que numa exclamação incontida de glória...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Percorrendo a blogosfera

Calcorrear a blogosfera é uma fonte de surpresas. Algumas delas têm vindo a ser aqui divulgadas regularmente. Acontece quando o desejo de partilhá-las com os leitores voa mais alto. O que nem sempre coincide com a oportunidade. Nesse lote, incluo tendências, sinais, padrões. Vejam-se então dois casos:
1. Sucede com alguma frequência abrir um blogue e apanhar imediatamente com o som ambiente com que o autor ou autores decidiram brindar o visitante. Não me parece ser essa uma boa prática. É como inundar a casa de decibeis sempre que se recebem visitas, sem passar pela cabeça que estas podem preferir o silêncio. Se a partilha de escolhas musicais fizer parte do perfil do blogue, tal como desejado pelo seu autor, existem soluções alternativas: colocar um ou vários plug in, seja do You Tube ou em formato Quick Time, iniciados por exclusiva opção do visitante; colocar ícones a apontar para rádios em streaming; colocar simples links direccionados para os conteúdos propostos, etc.
2. No "segmento" da blogosfera a que chamo intimista, noto amiúde uma enorme confusão entre intimidade e memorialismo (este mais confessional). No primeiro caso, pespega-se com uma prosa poética semi-melada, normalmente com destinatário certo. Coloca-se umas pitadas de onirismo de estufa, à mistura com uns avanços "sexy hot" e fotos "de partir o coco". No vocabulário, abunda o "tu", "azul", "corpo", "beijo", "esta noite", "muro", "escaldante", "verão", "sonhos", "ao teu lado", etc. Aqui vai um exemplo : quero conseguir ouvir-te murmurar o meu nome. e tu, consegues ouvir-me? não me deixes partir. sempre te segurei na tristeza de não conseguires ver-me. e...se me trouxesses aquele mar de outrora e eu encontrasse o teu joelho como que por acaso...renasceriam braços e olhos de encantamento para apertar fraquezas, sentir-te tremer e ver-te dormir. depois dum dedo num canto da minha boca. Que tal? Devo dizer que a menção ao joelho me transportou ao célebre conto "Alma Grande", de Torga. Espero que não haja nenhum "abafador" metido na história... Ora, a marca que separa as águas, meus amigos, é muito simples: mandar postais com feromonas ou viajar em voz alta. Desenrolar a língua pelas palavras, estendê-las à mercê de uma vaidade viscosa, embuçada, ou então soltar a serpente pelas palavras, outras, ser mordido, morder, espantar, ilusionar, ir atrás, com a cobra na mão, sobreviver às estações fatais, enquanto alastra a silenciosa desordem das células... Snake snake, aí vai ela...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Improptus interruptus

quevaco promulgou a lei que. olha os esponsais a registar-se, a apanharem com arroz! ó carolino, ó ai meu bem! cromossomos iguaizinhos. é dos regulamentos, já se sabe. a lei que permite. essa grande potestativa. o solo desbragado das uniões sacramentadas. tiroliroliro, ó ai meu bem! os banhos anunciados. a natureza em toda a sua glória. passando ao lado. louçamente. que corropio! as muitas e mais que muitas desvairadas gentes. as muitas várias pessoas. dos mesmos sexos. respigadores da certidão. ou  mesmo diferente. ou o contrário. ou do mesmo. mas com músicas diferentes. corram, marias rapazes! é de lei. oh, que saudades da pipi das sardas. perna ao léu, costureirinhos! avante, raparigos! que o sol e tal. sim, a pipi das meias mais que altas. tão altas que tocam o cume de um registo. a lei que assim. quevaco levita. não quer confusões em casa de pobre. e não é que tem razão?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Acerca do ópio para o povo

E pronto, depois do Futebol, já só falta falar de Fado e de Fátima para compor a tríade revivalista, que muitos entendem ter sobrevivido na Democracia. Mas de Fado não me lerão por aqui uma linha que seja. Prefiro ouvi-lo, simplesmente. De preferência, em locais pouco recomendáveis. Sobre Fátima, coloco-me tão só no terreno da História. Outras paragens são escorregadias e invioláveis. Seja como for, não creio que a trilogia signifique hoje o mesmo, ou tenha o mesmo peso que já teve. Para já, importa dizer que, tirando as décadas de 1830 e 40, quando as principais reformas liberais liquidaram o Antigo Regime, nunca o país mudou tanto e tão depressa como nos últimos 30 anos. E essas mudanças abrangem muito mais do que simples grandezas estatísticas... Mas será que esta transformação deixou intocados determinados sistemas de representação colectiva, de que a tríade é o exemplo máximo? A resposta, a meu ver, não é linear. E aqui, socorro-me de um comentário que já deixei noutro local, sobre o mesmo assunto. É que o cerne do problema não está nessas manifestações, mas na forma como são instrumentalizadas. Todos os regimes e sistemas políticos necessitam de signos (uma estética, uma linguagem, uma narrativa, um conjunto de representações simbólicas) que o legitimem. Todos, sem excepção. Até as democracias. E um pouco  forçado apresentar a tríade dos 3F como uma criação exclusiva do Estado Novo. Fátima nasceu antes, como uma reacção do país rural contra os desmandos anti-clericais da 1ª república, a profunda crise económica e política que se deu após a nossa entrada na Grande Guerra e a síncope moral que esta infligiu. O Fado é muito, muito mais do que a canção oficial do Estado Novo. Sobra o Futebol. Trata-se de um fenómeno universal, um ersatz da agressividade e da competição, que assim ganharam um meio pacífico e viável de se expressarem, sob forma lúdica. Também há quem veja em certos momentos de bom futebol a inteligência em movimento. Mas essa análise ficará para depois. Foram instrumentalizados pelo Estado Novo? Sim, mas podia ser de outra maneira? Não conheço nenhum regime - do espectáculo concentrado ou difuso, utilizando a terminologia de Debord, ou noutra perspectiva, pré-industrial ou hedonista, segundo Pasolini - onde esse tipo de apropriação não tenha acontecido. Acabei de ver o magnífico documentário "Fantasia Lusitana", de João Canijo. Através dele, percebi que a gigantesca encenação que o Estado Novo criou de si mesmo, recorrendo à recomposição fantasista dos mitos do passado para serem projectados no presente, não foi sequer original. A originalidade, no contexto delicado e apocalíptico da II Guerra, foi ter transmutado a nossa insignificância numa grandeza oficial tão solene quanto ecuménica. Espectáculo para dois públicos distintos, é bom dizer-se: internamente, capaz de insuflar um orgulho desmedido num país pobre, atrasado e infantilizado. Para o exterior, criando a imagem de um oásis de paz, tolerância e universalismo. Uma neutralidade festiva, um arranjo floral para que as potências beligerantes, julgando-nos loucos simpáticos e exóticos,  nos tomassem tão entretidos com a sua celebração que, por decência, ou talvez por compaixão, não nos interrompessem o desfrute desse delírio. Por falar em tríade, creio que a outra bem conhecida - Deus, Pátria, Autoridade - talvez se aproxime mais da verdade para definir o Estado Novo. 
A máxima dos 3F foi pois uma espécie de adorno omnipresente no cenário do Portugal dos Pequeninos, criado pelo regime para se amparar e justificar. A melodia certa para a canção com que o país foi embalado durante meio século. Mas foi só isso, um instrumento.  Na democracia, por razões óbvias, está muito longe desse desiderato. Aqui, cada um dos vértices tomou caminhos diferentes. A religião transformou-se progressivamente numa questão privada e o laicismo tornou-se uma realidade inquestionável. O Papa movimenta multidões, não enquanto expressão de fé, mas como puro espectáculo. O Fado ganhou merecidamente a condição de género musical nacional (embora não oficial), enriquecido com novas experiências e contributos díspares, que só a liberdade tornou possível. O Futebol, por sua vez,  veio a ser um exemplo de sucesso da indústria do entretenimento, de acordo com um modelo empresarial e com a utilização intensiva dos media. Mas tornou-se também palco para reivindicações políticas locais e regionais. Impôs uma redoma à sua volta, que o protege da fiscalização dos poderes constituídos, criando assim uma espécie de imunidade, onde impera uma lógica de funcionamento diferente do resto da sociedade. Mas se, no caso do futebol, se pode falar com propriedade em instrumentalização pelo poder, ela é mais visível a nível local. Juntando no caldeirão as relações com o sector da construção civil, temos uma  mistura explosiva. Mas onde as diferenças se fazem notar com maior acuidade é nos meios financeiros que o futebol movimenta. Sobretudo nos clubes de topo, passou-se de um modelo associativo para as SAD, onde os activos financeiros, os direitos televisivos e o merchandising são determinantes. Portanto, se no Estado Novo o Futebol foi convenientemente utilizado pelo regime para fins propagandísticos e domesticação da natural conflitualidade, na Democracia aparece como um fenómeno de massas incontornável, um espelho da sociedade, incluindo o seu lado perverso.

sábado, 24 de abril de 2010

Eis a questão

Raras vezes na vida me deparei com um dilema tamanho: assistir ao jogo do Benfica na TV ou ir ver o espectáculo do Zeca Medeiros no Teatro Municipal da Guarda. Ajudem-me. Estou a pensar mesmo pedir uma orientação ao Dalai Lama para sair deste imbróglio...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Eyjafjallajokull

Antes

Depois

Será que este vulcão islandês, que projectou a sua cólera sobre o mundo desde 14 de Abril, poderia ter outro nome? Podia, mas não era tão cómico para um não indígena tentar pronunciá-lo. Será que poderia ter sido um bocadinho mais discreto? É claro que podia. Mas já que enveredamos pelas comparações, basta ficarmos pela maior catástrofe vulcânica de que há memória: o Krakatoa, em Agosto de 1883, numa ilhota indonésia entre Java e Sumatra, que a violência inimaginável da explosão praticamente fez desaparecer. A última erupção foi ouvida na Turquia e no Hawai e rebentou os tímpanos a quem se encontrava num redor de 15 Km. O manto de cinzas e poeira expelidas pelo colosso cobriram o globo durante cerca de ano e meio, provocando alterações climáticas e no ciclo solar. Os efeitos projectaram-se na própria arte, uma vez que, dizem os entendidos, o estranho céu do celebérrimo "Grito", de Munch, foi o mesmo que o artista pode observar nos céus da Noruega, um ano depois da erupção. O efeito do tsunami, com ondas de quase 40 metros, foi sentido inclusive no Canal da Mancha. Como vêm, mesmo num vulcão a discrição é relativa. Por último, não podia o Eyj...... ter uma sonoridade mais doce, mais apropriada a uma espécie de justiça divina, luminosa? Podia, sim senhor! E não seria tudo diferente, se agora falássemos do Vesúvio, do Etna, de Stromboli?... Espera aí!!!... Stromboli? Sim, a "terra di Dio", essa, filmada por Rosselini em 1949. E convenientemente habitada por um anjo, Ingrid Bergman... Ou seja, para bem da eternidade.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma história de amor...

As conversões, as iluminações, as combustões espontâneas, as apostasias, as revelações místicas, as hierofanias inexplicáveis e outros fenómenos congéneres têm, quase sempre, um tronco comum. Acreditemos que sim. Ainda que, neste caso, encimado por uma carinha laroca... Aconteceu à hora de almoço. No meio do habitual zapping, deparei com a proverbial TVI. Exactamente no momento em que irrompeu a Marta, correspondente da Agência Financeira, por entre as resmas de pixels do ecrã. Ah, momento sublime!!! Ah, perdição que tomaste conta de mim!!! Como foi possível? Ah, o doce desespero, a altura, o mar, a soberania do acaso... Coisas não fechadas, abertas de par em par, como se o peito rebentasse... Quando me recordo do eco, que antes palavras como "ratings", "flutuações cambiais", "índice Dow Jones", "abrir em baixa", "cair em alta", "títulos transaccionados", "praça de Tóquio", tinham em mim!... Quedas consentidas, subidas fulgurantes, lances virtuais que compunham uma linguagem fantasmática, estéril, que produzia tantas emoções no meu ser como um algoritmo matemático ou a leitura das indicações terapêuticas de um anti-inflamatório. Ou seja, o mesmo que uma ladainha numa língua ininteligível. Uma cifra cuja repetição cadenciada induzia a memorização da forma, a neutralidade do fonema oco. Uma frenética liturgia do capital, sem templos nem genuflexões, ampliada pelos holofotes do espectáculo. A narrativa possível para o vazio. Mas tudo isso acabou, mal vi a Marta... O que era asséptico tornou-se um sopro e um arrepio, o que era inatingível ficou ao alcance da mão... Enfim, das trevas nasceu a luz, essa é a mais pungente realidade, meus amigos. Apesar dos seus "espirros", das amoráveis hesitações, dos "portantos", do à vontade esforçado... Mas será que a verdadeira beleza dispensará uma ligeira imperfeição para se fazer anunciar? E pronto, já só ambiciono ser o corretor preferido das suas primícias...

sábado, 20 de março de 2010

Insónia

E se de repente as pessoas começassem a dizer sempre a verdade? Podemos imaginar que seria o caos. Ao nível da comunicação, das regras sociais, das crenças, religiosas ou não, do comércio, da política, das relações amorosas. Seria como desligar os faróis do carro durante a noite, numa estrada à beira da falésia. Assustador.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Estudos para um ódio de estimação perfeito

O arquétipo generosamente esculpido do espertalhaço, que arrecadou uns fundos na formação no "bom tempo", o suburbano da roulotte na Caparica, o tal da sardinha assada, o que fala alto na tasca da sua agremiação mas baixa as orelhinhas com o "Senhor Doutor", o tal que montou uma empresa de sondagens, depois de alguém lhe ter explicado que não eram furos artesianos, o que já mexeu no "meio" sindical, cujo patois vai soletrando, à mistura com um arremedo de discurso tecnocrático que copiou dos "empresários", os quais sempre invejou secretamente, capataz inconfessado, o mesmo que enche a boca com palavras como chairman e cluster e que associa a bebidas requintadas, o tal que tem um primo no Ministério, o tal que sabe umas coisitas de relações de trabalho e pequenas manigâncias reivindicativas, que agitou umas bandeirinhas na era do aquário, o bacano que se vai safando, que manda uns bitaites esclerosados, que defende as suas cores na TV com a desfaçatez dos ignorantes, o tal que, mal abre a boca, não consegue esconder uma langue de bois do tamanho das suas gravatas... SIM, ecce homo!

quarta-feira, 10 de março de 2010

O poço

1. em certos momentos, sinto que neste blogue falta metier, suor honesto, um tempero discreto mas poderoso, alçapões comunicantes, o estandarte do alferes cristóvão rilke, antepassado do poeta, os cavaleiros valorosos em repouso, as águas do levante, as linhas do levante no teu rosto, os outros mortos, os que resistiram até ao fim, as pequenas vitórias, o barro primordial, os anjos sussurrantes, as palavras em trânsito, as palavras por despertar...
2. com isto, não sei quão optimistas serão os poetas e os amantes. só que eu nunca disse: mãe, olha, sem mãos!

terça-feira, 9 de março de 2010

Os nichos do escritor

Para que cessem as dúvidas, também há o Escritor-Que-Mede-Leitor-A-Metro. O tal que tudo dá e tudo pode tirar. O que vai anotando, à margem, alguns dos seus tipos de ouvintes: Leitores de Ontem, Leitores do Ano Passado, Leitores da Rua A, Leitores da Rua B, Leitoras de Olhos Claros, Leitoras de Cachecol, Leitores Pouco Interessantes, Leitores Estratégicos, Leitores Tácticos, Leitores Inimigos, Leitores Bajuladores, Leitores Raivosos, Leitores Traidores, Leitores na Patagónia, Leitores de Berlim, Leitores Insuportáveis, Leitores Sentados no Trono, Leitores que Mexem os Lábios, Leitoras que Cruzam e Descruzam as Pernas, Leitores em Trânsito, Leitores de Cuecas, Leitores Professores, Leitores de Faculdade, Leitores com Verrugas no Nariz, Leitores em Tese, Leitoras com Bâton cor de Abacate, Leitoras no Meio de Batalhas Feromónicas, Leitores a dez mil metros Acima de Nós...

domingo, 7 de março de 2010

A paisagem do escritor

Criou-se a ideia de que, nos encontros literários, os escritores se aproximam do público, o público se aproxima da literatura e os livros se transformam num prato de amendoins no meio da cavaqueira. Por sua vez, cre-se que os escritores supostamente despem a sua áurea de inacessibilidade - "até falam de futebol", disse-me uma prima que esteve num encontro desses, há uns anos -, fazem esquecer epopeias misantrópicas e trocam acaloradamente os respectivos cheiros a sovaco. Alguns não se importam mesmo em subir a saia e deixar escapar algumas inconfidências acerca da sua próxima obra. Outros, são já profissionais da "coisa". Misturam-se no milieu como agentes infecciosos oportunistas. Nunca escreveram nada que se aproveitasse, mas o seu esforço penetro-insinuante acaba por dar frutos sumarentos. Estão quase sempre. São vistos. E se são vistos, algum editor acaba por convidá-los para. Neste caso, a chamada endurance do croquete, com final feliz. Já agora, por falar em croquete, vou dizer o que, para mim, representa a maioria dos encontros literários: sessões de masturbação colectiva. Nem mais. Isto porque os verdadeiros encontros literários passam-se, digamos, noutra frequência hertziana, noutro filme: é o escritor, quando se encontra a si próprio, ou seja, o seu terreno. Alguns exemplos: Malcolm Lowry e o México, Duras e a Indochina, Rilke e os anjos, Kafka e as sombras, Yourcenar e as ilhas gregas, Camus e o sol do Mediterrâneo, Nabokov e o exílio, Borges e os labirintos, Faulkner e Yoknapatawpha.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Low tech

Aquele amanhecer foi mesmo penoso. De bom, só havia a reconfortante vaga canora dos pássaros. O ruído de fundo da eternidade. Podia ser. Essa de que o tempo é a imagem móvel. Poesia pura, o melhor de Platão. Mas pronto, devia andar sempre com um bloco de notas directamente ligado às impressões sem data. Ao fulgor de certas paisagens que nunca existiram, porque demasiado reais. Todavia, estão ali, com uma luz impossível, ao alcance de uma lágrima, de uma pequena obscuridade lançada pelo desejo. Mas acontece que essa rudimentar tecnologia poética só aparece na medida em que nada se espere dela, pois nada garante. A não ser, talvez, o sobressalto de não saber o que se pode deixar para trás.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

The power of love


René e Georgette Magritte, Junho de 1922

Quando deparei com esta imagem no Musée Magritte, em Bruxelas, no Verão passado, percebi imediatamente estar perante um sinal inequívoco do verdadeiro amor, tão louco que nem se dá por ele...