Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mais do mesmo

Até mesmo as bebedeiras têm a sua rota a longo prazo. As minhas ebriedades compulsivas no Bairro Alto tiveram um seguimento adaptado na Guarda. O único local aprazível, o Zincos, só funcionou até 2007. Entretanto fechou. O resto é mais do mesmo: estudantes idiotas e semi analfabetos do IPG, aliados a promotores da noite a procurar animar sem critério e sem audácia. Outro dia dia fui ao "Aqui Jazz" com uns amigos e o atendimento foi abaixo de cão. Algo mais gostaria de acrescentar, mas vou até ao Café concerto do TMG, o único local com música esclarecida nesta cidade e depois direi alguma coisa...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Técnicas de propaganda para acossados

O primeiro governo de Sócrates foi dominado pela propaganda no sentido clássico do termo. Aquilo a que estamos a assistir neste momento é algo de muito diferente. Com os números da dívida e do desemprego a subirem; com o Tribunal de Contas a reprovar sucessivos negócios governamentais; com a Justiça a sofrer das maiores pressões exercidas por um governo em Portugal; com o primeiro-ministro cujo nome começou por aparecer em alguns casos e se transformou ele mesmo num caso único da política portuguesa, a estratégia de comunicação do círculo de José Sócrates é cada vez mais o ataque e de cada vez que ataca atinge os alvos duma forma que até esse momento se julgava interdita. Foi isso que aconteceu ontem com as respostas dadas por Vieira da Silva e Ricardo Rodrigues no parlamento a propósito das acusações de “espionagem política” formuladas pelo ministro da Economia, no momento em que se tornou público que havia escutas de conversas entre Armando Vara e José Sócrates.
Como Portugal não é (ainda) uma república das bananas não é normal que um ministro acuse o Ministério Público, as polícias de investigação e não se percebeu se também o Supremo Tribunal de Justiça de “espionagem política” pois essas seriam as entidades que estavam ao corrente das escutas. Chamado ao Parlamento para explicar o que queria dizer com a expressão “espionagem política”, Vieira da Silva não explicou nada e mudou estrategicamente o alvo, acusando Manuela Ferreira Leite não se percebeu se de espiar, de alguém espiar por ela ou de estar ao corrente do conteúdo da dita espionagem. Foi secundado nesta acusação pelo deputado Ricardo Rodrigues, sendo que este último cometeu o deslize de admitir que o negócio da TVI, que Sócrates dizia desconhecer, é de facto referido nas escutas que diz alegadas. E assim, num golpe que tem a vantagem para quem o usa de contribuir para confusão que já não nos permite perceber quem disse o quê e quando – o problema deixou de ser um ministro acusar o Ministério Público e as polícias de fazerem espionagem política –, passámos a ter a líder do PSD a fazer espionagem. E mais importante ainda, caso a líder do PSD peça explicações por estas acusações de Vieira da Silva e de Ricardo Rodrigues há-se ser acusada de não ter sentido de Estado ou ridicularizada, ou provavelmente ambas as coisas. E o assunto assim morrerá até que amanhã Vieira da Silva, Santos Silva, Ricardo Rodrigues ou José Junqueiro voltem a usar esta técnica, até agora eficaz, de responder atacando duma forma que não se julgava possível num partido de governo para, em seguida, rapidamente recolherem à segurança da postura institucional. Sendo que todos sabem que para próxima usarão a mesma técnica mas o ataque será ainda mais feroz.
Contudo ficou por saber se o ministro nos informou oficialmente que existe em Portugal uma rede de espionagem nas polícias e na Procuradoria que, segundo o mesmo ministro, fornece informações a Manuela Ferreira Leite. Se Vieira da Silva quis mesmo dizer o que disse tem de voltar novamente ao parlamento porque se uma rede de espionagem política é grave, uma rede que trabalha para um determinado partido é ainda mais grave. E um ministro que lança suspeitas deste teor ou as fundamenta ou deixa de ser ministro.

Helena Matos, no "Público" de ontem

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A agenda socrática

Um grande empresário português marca uma audiência com José Sócrates, na Residência Oficial do Primeiro-Ministro. Enquanto aguarda, encontra Armando Vara que o recebe com muitos abraços. Quando é recebido pelo Primeiro-Ministro, sente falta da carteira e resolve abordar o assunto com o PM:
- Não sei como lhe hei-de dizer, Senhor Primeiro-Ministro, mas a minha carteira acabou de desaparecer!
E continuou:
- Tenho a certeza de que estava com ela ao entrar na sala de espera. Tive o cuidado de a guardar bem, após apresentar o BI ao segurança. Não quero fazer nenhuma insinuação, mas a única pessoa com quem estive depois disso foi o Dr. Armando Vara, que está aqui na sala de espera ao lado.
O Primeiro-Ministro retira-se do gabinete. Pouco tempo depois, regressa com a carteira na mão.
Reconhecendo a sua carteira, o empresário comenta:
- Espero não ter causado nenhum embaraço pessoal entre o Senhor Primeiro-Ministro e o Dr. Armando Vara .
Ao que José Sócrates responde:
- Não se preocupe! Ele nem percebeu!...

A anedota é esta. Mas à semelhança dos autores romanos, que gostavam de acrescentar uma pormenor pícaro aos mitos gregos (veja-se como Plínio, o Velho, tratou o espectro de Narciso, o esbelto filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope, descrevendo-o a debruçar-se da barca, freneticamente, para se contemplar uma última vez nas águas do Rio Lethes, ao atravessá-lo), gostava também aqui de meter a colher. Então é assim: depois da reunião, Sócrates foi consultar o dicionário de sinónimos, com um compêndio de inglês técnico ao lado, afim de engendrar as invectivas com que iria brindar Pacheco Pereira no próximo debate parlamentar. Pois é. Depois dos sensacionais "você não passa de um revolucionário retardado" e "revolucionário uma vez, revolucionário toda a vida", aguardam-se as próximas manifestações de ressabiamento do licenciado Sócrates.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Goodbye Lénine

Repare-se nesta pérola da saudosa esquerda dos idos de setenta: "nos 27 anos em que se manteve o muro em Berlim houve 79 mortes das quais foi dada informação uma após outra até à saciedade: eram "vítimas do comunismo". Entre 1989 e 2007 foram mortos, que se saiba, 15.000 imigrantes ao enfrentarem as fronteiras europeias" (in Muros ruidosos, Muros silenciosos).
Apesar de o comunismo ter falido em toda a linha e de ter chegado a hora das utopias pré marxistas (as únicas em que vale a pena investir), apesar das evidências do colapso da luta "anti acapitalista", há quem ainda persista na cegueira. Ora, no exemplo citado, as "detestáveis" fronteiras europeias são comparadas ao muro erigido pelos carcereiros comunistas da RDA. E os fugitivos africanos são comparados a cidadãos de uma mesma nação, que tiveram o azar de ficar do lado errado e que só desejaram reconquistar a liberdade e a prosperidade. Anular as vítimas dos "outros" com as "nossas" é o expediente monstruoso que resta a uma esquerda ultra-complexada, que ainda desfia o catecismo marxista, sem dignidade e sem sombra de vergonha. Nesse acto de devoção aparecem outros "santos" como Frantz Fanon, teórico chic do "anti-colonialismo", muito na moda nos trabalhos académicos nos anos 70. Trocado por miúdos, mais uma fraude africana sub-gaulesa, alimentada pelos compagnons de route sartrianos e afins.

sábado, 24 de outubro de 2009

Mas ainda dão corda à criatura?

Saramago, o antigo aparatchik, distinguido no capítulo dos saneamentos políticos no DN durante o Verão Quente de 75, anda a fazer pela vida. Desta vez, lançou uns mind games promocionais, assim mais teosóficos, acerca do Antigo Testamento. Logo transformados no centro do debate na esquálida "praça pública" da Nação. Afinal, o homem não disse mais do que outros já disseram sobre o tema. Só que se trata de um nobelizado, um intelectual "progressista", apreciado por muita gente com a escolaridade obrigatória. No entanto, Saramago é talvez o maior equívoco da literatura nacional do séc. XX. Escreve bem, o que é discutível, mas nunca foi um bom escritor. Vale mais uma só obra de José Cardoso Pires do que toda a sua litania prosélita, que alguns confundem com literatura. Como cidadão, a arrogância e o ressentimento social precedem-no à légua. Porém, a sua prestação mediática é-me absolutamente indiferente. Entretanto, a criatura lá vai parindo uns volumes, tentando imitar os sul americanos. Desta vez, para aumentar as vendas de "Caim", nada como uns bons soundbites, em registo agitprop. Um tique que lhe ficou dos tempos leninistas. Mas cuja eficácia, em termos de marketing, tem chegado e sobrado. Portanto, temos um escritor medíocre, esganiçando-se na tasca a dizer "mal da padralhada". Ou seja, um pregão tonitruante que anuncia os seus serviços... Esquecendo-se que barafustar "contra a padralhada" é uma espécie de socialismo para idiotas.

Publicado no jornal "O Interior"

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Zapping

A questão da suspensão do jornal de sexta, na TVI, tem contornos mais complexos do que à primeira vista possa parecer. Todavia, ao mesmo tempo, tornou tudo mais claro. Mesmo admitindo que tenha havido anteriormente pressões do gabinete do 1º ministro para que o programa acabasse, custa a crer que, num período eleitoral, tenham sido mais intensas. A ordem de suspensão, sabe-se agora, partiu do próprio Cébrian, patrão da Prisa. Só um ingénuo pensaria que foram imperativos de qualidade que determinaram a decisão. Numa perspectiva empresarial, no universo autofágico da comunicação social, o programa seria de manter, em princípio, pois tinha um share consolidado. Apesar de a emissão dever servir como case study sobre o que não deve fazer-se no jornalismo. Então, se assim é, porquê acabar com ele? Simplesmente porque outra lógica se sobrepôs à das audiências. Num país onde o peso do Estado se faz sentir em todos os sectores de actividade, não seria desejável que a TVI ficasse para trás numa possível reestruturação do sector, ou que tivesse tratamento de 2ª na disponibilização da informação oficial, ou nas habituais prebendas. O grupo detentor da estação assustou-se perante a perspectiva de promover um programa estigmatizado, num país pequeno, movido pela inveja, sem um espaço público plural e transparente e com um Estado imenso. Tudo o resto são suposições. Por outro lado, a reacção de Sócrates é miserável. Afirmando, com um cinismo insuportável, que até gostaria que o programa continuasse, mesmo tendo sido "vítima" no passado da "terrível" Moura Guedes. Mesmo tendo já dito o pior possível da emissão e dos seus responsáveis. Sócrates perdeu aqui toda e qualquer credibilidade política para quem gosta de manter um mínimo de exigência em relação a quem nos governa. E o caso Freeport está longe de ter terminado...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O nó

Aplaudo sem restrições o veto presidencial ao projecto-lei de regulamentação das uniões de facto, aprovada recentemente pela maioria parlamentar. Se há matéria sobre a qual sou sensível é a da invasão da esfera das liberdades pessoais por uma esquerda festiva e que utiliza a sua ideia de igualdade como um rolo compressor. Neste caso, um PS em fim de mandato, acolitado pelos comunistas e pelas hordas fracturantes bloquistas, não hesitou em tentar fazer passar pela porta do cavalo algo que a sociedade nunca reclamou, nem o seu programa eleitoral mencionou. Esta medida tem duas leituras óbvias. A imediata, diz-nos que o timing para uma eventual reaprovação parlamentar da lei irá recair na próxima sessão legislativa. Com a decorrente incerteza da próxima composição parlamentar. O PS quer assim demonstrar trabalho perante a esquerda "histórica" e marcar pontos nas eleições que se avizinham. Por sua vez, uma leitura não imediata revela-nos a profunda insensatez deste tipo de medidas. Repare-se no seguinte: a recente lei do divórcio veio instituir, na prática, uma espécie de permissão para o "divórcio na hora", desprotegendo, nos seus efeitos, a parte tendencialmente mais fraca. Isto é, conseguiu relativizar os deveres e exponenciar ficticiamente os direitos. Com a recente proposta, vem-se atribuir efeitos jurídicos a uma situação de comunhão de vida, onde as partes não quiseram precisamente que eles existissem! Porque se realmente os quisessem tinham optado pelo casamento! Ou seja, o Estado, munido do característico jus imperii, vem meter no mesmo saco situações inconfundíveis, determinadas exclusivamente pela esfera de liberdade pessoal dos envolvidos. Criando assim uma espécie de casamento atípico, onde são atribuídos direitos a quem nunca os pediu e negados os deveres que os justificam. A esquerda jacobina deve estar orgulhosa desta "obra" proselitista! De uma estupidez inaudita. Até porque as situações injustas criadas por via das uniões de facto, do ponto de vista securitário, da transmissão do arrendamento e sucessório, já estavam devidamente salvaguardadas no ordenamento jurídico em vigor. É quanto basta. Tudo o mais é uma intromissão intolerável na privacidade dos cidadãos. Por outro lado, há quem defenda que o projecto agora vetado vem trazer alguma protecção aos casais homossexuais. Mas se assim é, então mais valia que a maioria parlamentar assumisse, corajosa e frontalmente, o casamento entre nubentes do mesmo sexo! Porém, essa medida é pouco "aconselhável", em termos de contabilidade eleitoral. Ora bem... Mais interessante foi ver a reacção de alguns parlamentares ao veto presidencial: "arcaico", "ultra-conservador", "reaccionário", que "quer manter a injustiça", etc. Sem um único argumento razoável em defesa do projecto. Só faltou o providencial grito de guerra da "esquerda unida, sa": "seu façista!". Em resumo, didáctico, mas de uma tristeza aterradora.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A choldra

Exemplo de alguns refastelados do regime: a chungaria proto-maçónica, os imberbes e imaginativos tecnocratas com cursinhos superiores à la carte, padecendo de iliteracia crónica, impetuosos caciquinhos de província, pastoreados pelas claques do picnic, gente infecta dos partidos políticos, filhos da puta avulso, frequentadores da sopa dos pobres da União Europeia, plebeus ignorantes, prepotentezinhos, eminências vociferantes, donas disto e daquilo, insignificancias jesuíticas, bovinos de esquerda, gente sem gratidão, sem um toque de Midas a compor a virtude e a paleta, gente sem rumo, sem coluna vertebral, sem coragem, sem audácia... É esta a choldra que nos governa e que vai amordaçando o que resta da qualidade da nossa democracia.
Tudo isto a propósito da notícia que segue. Note-se que isto acontece no mesmo país onde a grande criminalidade continua impune e onde os políticos corruptos continuam a sorrir como se nada fosse com eles. Um nojo.

Dois membros do Movimento 31 da Armada foram hoje à tarde levados por elementos da Polícia Judiciária quando se dirigiram à Câmara Municipal de Lisboa para devolverem a bandeira da autarquia, disse à Lusa fonte próxima do movimento.

Rodrigo Moita de Deus e Henrique Burnay foram os elementos do 31 da Armada levados pela PJ quando tentatavam entregar a bandeira da autarquia, "devidamente engomada", que substituíram pela bandeira monárquica na noite de segunda-feira, acrescentou a mesma fonte.

Na noite de segunda-feira, pouco depois da meia-noite, quatro elementos pró-monárquicos do Movimento 31 da Armada, autor de um blogue, retiraram o símbolo autárquico da varanda dos Paços do Concelho e hastearam a bandeira azul e branca com recurso a um escadote, uma iniciativa destinada a "restaurar a legitmidade monárquica".

in "31 da Armada"


sábado, 4 de julho de 2009

O terceiro mundo

Este homem é muito mais do que um vendedor de pneus suburbano, semi analfabeto, sem competências sociais, nem "mundo". E que o laxismo que alguns confundem com democracia empurrou para o estrelato. É o representante exemplar do pato-bravismo pós prec, que prosperou à custa de negócios semi-clandestinos. E que, como bom self made men da gamba e do merxedes, não descurou o negócio. Gere o Benfica como se fosse o supermercado da esquina. Sem estratégia, sem brilho, sem resultados, sem auto-avaliação, sem respeito pelas opiniões divergentes, sem educação, sem estatura cívica condigna, sem deixar de se achar dono daquilo que é simplesmente depositário em nome dos sócios, sem rasgo, sem carisma, sem fair play, sem nunca reconhecer o erro. Este homem pode ser um bom fiscal de obras, mas não serve para um lugar como o Benfica. Se continuar, vai acabar por o banalizar, pô-lo a lutar pelo 3º ou 4º lugar, ser o bombo da festa dentro e fora do país. Um case study onde o sebastianismo manda, em lugar das vitórias. Portanto, espero bem que a coisa bata bem no fundo. Pode ser então que alguém aprenda alguma coisa.

PS: O homem teve uma vitória albanesa. que os capangas de serviço já se encarregaram de apregoar aos céus. Mas porquê tanto estardalhaço? Lembremos que foi "eleito" ao arrepio de uma decisão de um Tribunal; que passou a campanha a caluniar os opositores; que recolheu 18 825 votos, num universo de 178 000 sócios (para já não falar nos tais seis milhões de simpatizantes); que reduziu o Benfica, desportivamente, à vulgaridade. Que legitimidade real tem o homem para continuar a enterrar o clube? Será que não tirou as devidas conclusões, face à onda de contestação à sua gestão? Por outro lado, as reacções sectárias e alucinadas dos apoiantes envergonham-me como adepto. Pensava que o Benfica era um lugar de liberdade e de pluralidade. Não é. Isto não foi uma eleição, mas uma nomeação por uma micro minoria. Com estas hordas, o SLB tornou-se um lugar perigoso. E eu já não quero assistir ao resto.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O arraial

Ninguém porá em causa que, na Guarda, existe uma oferta cultural com bastante qualidade. Quer em termos absolutos quer relativos. Mormente aquela que chega por via do TMG. No entanto, apesar de alguma constância ao nível dos públicos, pesa ainda muito o lastro local da relativa ausência de hábitos regulares de fruição cultural e de uma massa crítica participativa e independente. Realidades estruturais que poderão ainda ser vistas sob outros formatos: a inexistência de uma intermediação crítica entre a imprescindível informação, que acompanha os espectáculos e o simples copy/paste dos press release com que os jornais "noticiam" a cultura. Falta pois o meio termo, que neste caso encerra uma virtude inigualável: indicia uma opinião pública descomprometida e esclarecida, mas que não receia sair das torres de cristal onde alguns iluminados se encerram; mostra os sinais de um espaço público dinâmico, sem receio do contraditório, em que várias verdades coexistem e se vão compondo com urbanidade e audácia.

sábado, 20 de junho de 2009

O coveiro


O bimbo da foto, segundo tudo indica, vai ficar à frente do Benfica mais um mandato. A jogada da antecipação das eleições é de mestre. Isto é, de mestre de obras espertalhaço, o seu princípio de Peter. Ao retirar assim o tapete aos adversários, que se preparavam para apresentar alternativas credíveis à sua gestão desastrosa, demonstrou que se quer eternizar no poder. Acolitado pela sua matilha de indefectíveis, mais apropriados para integrar uma seita religiosa ou numa milícia popular. Que digerem mal os "relatórios de danos" sobre a actual situação do SLB, oriundos dos milhares e milhares de críticos da sua gestão. Basta consultar os blogues da "situação" e os "não oficiais". Entretanto, os "pontos de ordem" desses críticos acentuam esta fábula populista da desculpabilização do fracasso pela perversidade do "sistema". Lembrando os mesmos que, se ele existe, a melhor forma de o combater é alcançando vitórias. A natural insatisfação e revolta dos simpatizantes e adeptos que deram a cara, já provocaram sérios problemas nervosos aos adeptos que gostam de ser enganados, todas as épocas, com um eldorado, que uns meses depois se revela ser quinquilharia da loja dos 300. "Com papas e bolos se enganam os tolos", diz o povo. "Com esta equipa vamos longe" tornou-se a fábula estival que se repete ano após ano. No caso do SLB, a margem de manobra de uma direcção sem know how, sem estratégia, sem autoridade real, provinciana, alheia à meritocracia, com mentalidade de pato-bravo, passa inevitavelmente pela hábil gestão do binómio espera/esperança, como em qualquer religião que se preze. A história já se sabe, de cor e salteado: todos os anos, investimentos colossais num plantel "de sonho", "este ano é que é", etc. Depois vem o "retorno": uma equipa que colecciona exibições miseráveis, mais até do que resultados; jogadores desmotivados, em claro sub-rendimento; treinadores mal escolhidos e mal apoiados, as performances sobejamente conhecidas nas várias competições onde o clube participou (incluindo as inenarráveis exibições na Taça UEFA). E qual é o discurso oficial perante esta tragédia? Pois, já adivinharam. Meia dúzia de soundbites arregimentadores das massas, ancorados na diabolização de forças externas; uma lógica suicidária, de fuga para a frente; a ausência de qualquer avaliação de resultados e de estratégias, como é normal fazer-se em qualquer empresa; a hábil manipulação das legítimas expectativas dos adeptos; uma política de comunicação miserável, com declarações erráticas e fora do timing, nunca distinguindo o que é diferente (um erro de julgamento do árbitro e o favorecimento doloso, por exemplo, como se viu nas lamentáveis teorias da compensação, propaladas pelo director de comunicação do SLB, a propósito do conhecido episódio do penalty do final da Taça da liga); desprezo pelo "invisível" mas indispensável trabalho de bastidores. Este último aspecto constitui, no fundo, a verdadeira "piéce de resistence" de qualquer clube que trabalha para ganhar e inculca na sua equipa essa mentalidade e esse saber. Como adepto que já vibrou com o verdadeiro Benfica, sinto-me defraudado com tanta incompetência, tanta estupidez, tantos recursos esbanjados. Portanto, se este senhor continuar, saio eu. Nunca gostei de cerimónias fúnebres.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O braço estendido


Eis Michela Vittoria Bambrilla, ministra italiana do Turismo. Bom, já se recompuseram ou ainda sonham com a figura esbelta da nossa Ministra da Educação? Pois dizem as más línguas que ela faz a saudação fascista depois do hino nacional. Não posso! A sério??? Custa a acreditar! É com fait divers como este que certa esquerda europeia anda preocupada, depois da trepa que levou no domingo. E aqui está a prova de que as mulheres folcloricamente esquerdalhas ainda usam óculos (ou bigode), são chatíssimas, acham que o Fellini é um misógino da pior espécie, tiraram o curso de Psicologia à noite, ou então, mostrando um belo naco, não deixam de comunicar por onomatopeias segredadas pelo chefe e fazer boquinhas, como é o caso da novíssima eurodeputada do BE. As outras, as que interessam, pendem para outra coisa. Ou, melhor ainda, não pendem, só dançam. São a marca do tempo sem o tempo.

Nota: nos comentários, podem bater no ceguinho à vontade...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Viver para contar

Acho que a Democracia é um erro, um erro monstro. E é-o por muitas razões, tantas quantas aquelas que achamos que deviam ser as coisas belas da vida e das quais desistimos porque achamos que nunca se realizarão. Por isso dizemos que a Democracia é o menor dos males. E esquecemo-nos de perguntar quem somos nós para dizer o que é o menor dos males. Não, o Povo não tem razão. Nós não temos razão. Morreram duas centenas de pessoas sobre o Atlântico. Temos a noção que foi um mal terrível. Será o menor dos males se não foram assassinadas por terroristas e se tivessem morrido sem dor. Não se pode dizer que ninguém sabe. Sabem mas não querem dizer porque destruiriam uma indústria que enche os bolsos a ricos e enche o prato a pobres e, pior, que mistura as pessoas todas umas com as outras, acabando com o racismo, dizem. Como se as pessoas não fossem diferentes porque estão ligadas a um certo lugar. Mas aqueles que precisam de enganar o mundo inteiro porque já ninguém acredita neles, no lugar onde nasceram, não param enquanto não impuserem a sua vontade ao mundo, enquanto não tiverem calado os outros todos. Eu já passei um voo assim. O meu avião entrou dentro dum furacão. A voz dos pilotos tremia. Eu estava sentado atrás e a fuselagem ondulava como uma barraca de palha. E, por cada ondulação o avião estalava com pancadas terríveis. Uma senhora com os filhos chorava. Os filhos perguntavam ao pai se iam cair. O Pai, corajosamente, berrava com eles a dizer uma coisa que não é verdade: que as coisas só acontecem aos aviões ao aterrar ou descolar. Ao meu lado, um veterano da Guerra colonial já deixara há muito de dizer que sobrevivera a aviões muitos piores quando fora transportado como soldado, para lugares onde alguns dos que sobreviveram ao voo, morreram em tiroteios, em emboscadas, ao calcar minas. Ao fim, em paz, depois de pairarmos sobre um mar calmo onde se reflectia a lua, os pilotos e as hospedeiras alinharam todos em silêncio, de chapéu na mão enquanto saíamos. Não se ouvia um zumbido. Como crianças grandes, deste pesadelo chamado Democracia, todos fugiram envergonhados, salvos mais uma vez, para as suas casas. E eu voltei a voar, a sofrer horrivelmente, a rezar à descolagem e à aterragem, a imaginar o meu Amigo Júlio Santos como um cavaleiro medieval, coberto de sangue levantando uma asa e um anjo enorme levantando a outra. Desfiz-me em fraternidade com os meus companheiros de viagem, tão diferentes, fui irmão, fui pai, fui filho, chorei, ri-me, sobrevivi para contar. Entreguei a alma ao criador, entreguei todos os meus bens, sonhei pela última vez com alguém que amei e que me não correspondeu, ajeitei como um anjo a roupa da cama à minha filha adormecida, troquei as últimas indicações de casa com a minha mulher de que me separei, afaguei a fronte do meu pai doente e da minha mãe sofrida. Disse ao meu irmão para não se preocupar e amei sinceramente, sem dúvidas, a Humanidade inteira. Vi Jesus estendendo os braços sobre o Mundo. Vi Buda sorrindo no Sol, senti os braços de Alá segurando o Universo que me rodeavam. Sobrevivi. Mas uma sociedade que assassinou estes passageiros todos duma forma tão bárbara sobre um lugar tão frio e inóspito que só uma certa raça de gente, e não qualquer um, a pode percorrer, não vou perdoar. A Democracia, a Técnica, a soberania absoluta dos votos e da liberdade de expressão, não são o melhor dos possíveis. A Democracia que dá a Soberania a nós todos, retirando-a a tantas coisas que existiram e existirão além de nós, não é o menor dos males. É o maior mal dos menores. E lembro-me de um ditado chinês com milhares de anos: nascer e morrer numa aldeia, ter acordado dias sem conta com o latir dos cães da aldeia vizinha. E nunca a ter visitado. Não sofremos já todos demasiado para nos tratarmos delicadamente, com carinho, com Amor, como se o nosso Próximo fosse o último?

André

quinta-feira, 7 de maio de 2009

La Dolce Vita

Aguardado ansiosamente por borlistas e basbaques, abriu finalmente o "Dolce Vita Tejo". Trata-se do anunciado maior espaço comercial da península. Deve ser mesmo "península", e talvez mais do que isso. Pois no norte da Europa, que não são parvos nenhuns, já deixaram há muito de apostar nestes hiperespaços comerciais. Passou então a "reportaje" na SIC. O povoléu, exultante, onde pontuavam decerto alguns dos que encheram a barriga na mega-feijoada da inauguração da ponte Vasco da Gama, lá ia recolhendo os saquinhos de plástico e as lembranças de boas-vindas. Que vantagens? Que futuro? Gosta? Ninguém tinha uma opinião formada, "acho bem, e tal", assim como assim... Os lojistas, esses esperam pelo próximo lance. A interstícios, lá se viam os inevitáveis operários em acção, com a brocazinha ou a rebarbadora. Dando os últimos retoques na obra. Imprescindíveis apontamentos lusos em qualquer "boda inaugural". "Boda inaugural"? Isto não soa bem, mas adiante... Querida, olhá promoção! Crise, qual crise? Lembras-te dos Supertramp, lembras-te, querido? Assim como assim. A feira cabisbaixa no seu melhor. O O 'Neill que me perdoe, está bem?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Nós, os fundadores...

"Se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de de recomendação para integrar os quadros da PIDE". Palavras do líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, respondendo ao deputado socialista Mota Soares. Foi durante o debate sobre as agressões dirigidas a Vital Moreira na manif do 1º de Maio, após aquele ter acusado os comunistas de terem "uma história sobre a calúnia, como têm todos os partidos comunistas do Bloco de Leste" e compreender o «nervosismo» do PCP por ter sido ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas intenções de voto. Bernardino teve depois o seu "momento chavez", digno de figurar na história recente do parlamentarismo em Portugal. Foi quando, depois de negar que o seu partido seja "um bando de arruaceiros", reclama-o, imaginem, como "um PARTIDO FUNDADOR DA DEMOCRACIA"!!! Leram bem, foi mesmo isso que ele disse!!! Então e a multidão ululante, pastoreada por capangas do aparelho e formada por lumpen arregimentado que, durante o "Verão Quente", queria invadir a Assembleia da República e paralisar os trabalhos da Assembleia Constituinte, sob os gritos "abaixo as instituições burguesas", "as eleições são uma farsa" , "viva a ditadura do proletariado" e outras palavras de ordem com o apropriado air du temps? Durante um ano e meio, os portugueses puderam apreciar quanto baste as "virtudes democráticas" desta força obscura, sectária, irresponsável, cada vez mais reduzida a um grupo de fanáticos e desequilibrados.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Democracia

Sobre a Dra. Laura Santos, psicóloga-filósofa da Eutanásia

A verdadeira voz da Democracia aí está. Os artigos de jornais, os dichotes, as manobras velozes, o aparente brilho da palavra quando a memória é curta e ela é curta sobretudo quando a submetem sempre a novidades, de difícil comprovação. Umas riscas regulares no fundo do Oceano e o título do jornal fala na descoberta da Atlântida. A presença das componentes da água em Marte e há oceanos subterrâneos no planeta vermelho. O sorriso de um homem só, na direcção de uma criança, na rua, e temos um pedófilo. O jornal assenta a sua verdade no direito à liberdade de expressão, mas também nas tiragens.
A voz da Democracia é como um ronco do Inferno que chove sob a forma de artigos de jornal, de posts, de vídeos, desenhados a preto e branco, ou a cores sumárias, sempre e sempre encadeando-nos com uma força hipnótica. E o fluxo desta avalancha, de novo é defendido de modo ameaçador pelos guardas da Democracia. Ai de quem a desafie!
Uma rapariga bonita e adulta declara-se virgem e o seu nome é arrastado pela ribalta como um marciano. Mas um guerreiro é considerado santo e o que discutem dele é quem é seu descendente, ou da sua armadura, não o seu hábito esfarrapado de monge.
A voz da Democracia é medonha, como o monstrengo que está no fim do mar. A ameaça paira no ar, as lâminas dos guardas da Democracia cortam como guilhotinas e a multidão, mais medonha que a própria Democracia, guarda as costas a estes guardas.
A democracia inaugura e paga o debate sobre os que defendem a Eutanásia, ou o Aborto. Em ambos os casos, não estão os de piedade e excepção que são todos atendíveis. O que passa a estar em causa é a provisão e a programação da limpeza dos fetos de dentro da barriga da mãe ou a antecipação, por via duma assinatura ou duma gravação, se não mesmo duma impressão digital, daquilo que acontece inevitavelmente a toda a forma de vida mais ou menos íntegra. E, da provisão, passa-se para fazê-la uma função do Estado.
Ora se há esta possibilidade de a fazer uma função do Estado, por meio da publicação e de um lugar na opinião que se publica, constitui-se uma posição que passa a ser mais respeitada e guardada pelos esbirros da Democracia que o próprio direito a respirar. Nasce o adversário e nasce o «debate». Obriga-se a debater o judeu com o nazi, o negro com um membro da Ku Klux Klan, um violado com o violador, um minoritário com o bolchevique. E ai de quem não respeite o «debate» entre o mártir lançado às feras e os leões esfomeados da arena! A Lei, como dizia Victor Hugo, proíbe igualmente aos miseráveis e aos milionários de dormirem debaixo das pontes. Respeitinho!
A vida pode debater-se por existir em condições sempre adversas, nem que seja só pela inevitabilidade da morte e da dor. Uma vezes mais adversas e outras menos adversas. Mas ela tem que respeitar o adversário, diz-se, como não podia deixar de ser, porque, na realidade, o discurso mais popular, e constantemente popular, entre a Ditadura e a Democracia, foi sempre o do futebol. Atenção ao «adversário»... respeitinho, que sem ele não tínhamos a bola, a nossa querida bola, de tontos surdo-mudos em que nos tornámos!
Que tenhamos a coragem de não encarar um cão que nos salta ferozmente num caminho ermo, ou uma praga que invade a nossa horta, como um adversário mas sim como inimigo. Inimigo, sim!Nem tenhamos medo de ser chamados anarquistas, terroristas, fascistas, nacional-socialistas, comunistas, protestantes, católicos ou ateus se fizermos frente sem hesitações a este inimigo. O que nos chamam pouco interessa, pois quem usa a voz, não está a combater. E se a Morte vier, metamos de uma vez na cabeça, que ela virá sempre e nunca como adversário, nem como inimigo, mas apenas como fim.

André

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O morcão ataca de novo!

(retirado do "Fanáticos Benfica")

O programa televisivo " Trio de Ataque", na RTP N, era um exemplo bem conseguido do género "debate futebolístico com comentadores dos três grandes". A razão era simples: a qualidade e a elevação dos dois principais intervenientes: António Pedro Vasconcelos e Rui Moreira. O outro, o do clube dos viscondes e que já foi sindicalista, é o tal que diz "ab hominem" e acha bem que os treinadores comecem a insultar toda a gente a torto e a direito, desde que equipem de verde e usem risco ao meio. Da figura, que trabalha em sondagens (depois de alguém lhe ter explicado que não eram furos artesianos) nem me vou ocupar aqui hoje. O caso de Rui Moreira é que é paradigmático. Uma vez que encontrar um adepto de referência do FCP bem educado e capaz de argumentos racionais é um achado. Um verdadeiro case study. Pois esta minha preferência televisiva durou até ontem. O homem deixou finalmente cair o verniz e revelou a sua verdadeira natureza. Nessa edição do programa, para lá de uma excitação anti-benfiquista extra, às tantas dirige-se a A.P. Vasconcelos e manda-o calar, dizendo que ele não era o "moderador do programa", se pensava que era "especial" e outros mimos do género. Nem queria acreditar no que estava a ouvir! Passados alguns intantes, mal-humorado, recusou-se a responder a uma pergunta do pivot. No seguimento, referiu que tinha sido primeira página do jornal oficial do Benfica, de forma pouco elogiosa. Tentando com isso justificar a sua aleivosia do momento. Mas o que é que esperava? Que o jornal do adversário desportivo o convidasse para tomar chá? Que o estatuto de figura pública só valesse para os benefícios? Rematou então com uma frase onde entravam "galináceos" e outros adjectivos murmurados. Foi a 1ª vez que vi na TV um comentador avençado a insultar em directo adeptos de outros clubes! Para mais, alguém supostamente instruído, com algum jogo de cintura e capaz de trocar argumentos razoáveis. Portanto, este espisódio revelou um (até ao momento insuspeito) andrade economista, que insulta em directo milhões de pessoas! E uma em particular, por quem tenho um especial apreço, como cineasta, homem de cultura e comunicador. E benfiquista a sério, claro! Confesso que já há muito não assistia a algo tão miserável e onde fosse tão fácil tomar partido!!! A indignação, permanece. O programa em causa nunca mais me terá entre os seus espectadores...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O fim da poesia?

Nunca percebi porque, para atribuirmos outra respeitabilidade a um escritor, dele dizemos que tem uma visão poética da realidade, do mundo. Ou que a sua prosa não é meramente prosa, mas sobretudo prosa poética. Acaso Paul Celan, poeta, "viu" mais do que Franz Kafka, romancista? Sylvia Plath, Anna Akhmatova, poetisas, alcançaram uma visão superior, uma visão poética que escapou, por exemplo, a Virgínia Woolf, ou Clarice Linspectos, novelistas? E que dizer de Henry James, Robert Walser, Proust, Mann, Joyce, ou Musil? Será que ficaram aquém da mítica e sublime visão poética dos vates da sua época, muitos dos quais nem sequer conhecemos o nome? O mesmo poderíamos dizer dos romancistas russos.
Stendhal, Pound, e sobretudo T.S. Eliot, já tinham intuído que, a partir do século XIX, seria a linguagem da prosa, e não a da poesia, aquilo que assinalaria o caminho da nova visão. Isto é, a visão "em prosa" da realidade haveria de deixar para trás,porque pertencente a outro tempo, a sagrada "visão poética". Pound chegou mesmo a fixar uma data para essa conversão: o nascimento de Stendhal. Dante, poeta, e Shakespeare, dramaturgo em verso e poeta, "vêem" o que nunca poderá ver Cervantes, narrador e mau poeta (segundo alguns)? Acaso Faulkner, como narrador, "vê" menos que Dylan Thomas como poeta? Nesta arrumação, onde cabe Blake? Em suma, de onde provem essa alegada superioridade da “visão poética” sobre a “visão” narrada em prosa? Já agora, recordemos também as “visões em prosa” dos “videntes clássicos”, sempre modernos: Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont, três criadores que também “viram” em prosa, sobretudo os dois últimos.
A “visão poética” morreu, devido à inanidade da própria poesia, dos seus poetas, incapazes já de enfrentar a complexa realidade do século XXI, que requer quiçá uma linguagem cuja construção seja mais universal, mais aberta, mais disposta a assumir todas e cada uma das novas técnicas, das novas tecnologias, que são também instrumentos de linguagem? Acabou a “visão poética”, em beneficio da "visão em prosa"? Mas quais as causas? Por esgotamento do discurso poético, mais cerrado, carregado de "códigos" antigos, de metáforas gastas, vazías, que já nada significam, uma vez que o seu significado natural, puro, a sua essência, pertence a um mundo antigo, caduco, a uma cultura cujos referentes místico-poético-literários são próprios de outro tempo e de outra linguagem, que já não correspondem às necessidades espirituais e verbais do século XXI?
Eis o dilema aqui proposto: será que a presumível vitalidade da "visão" literária em prosa, diante de uma provavelmente esgotada "visão poética", acabará por a relegar para o limbo do tempo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A mula

O senhor da imagem notabilizou-se, entre outras razões (vulgo, ter apoiado o "Zé" na CML, lançar umas postas de pescada na blogosfera), por participar num programa tipo "noites da má língua" e tal, na SIC N. Nessa rubrica, o títere da Praça das Flores debita uns soundbites esquerdalhos, de um reaccionarismo escandaloso. No estúdio, encontra-se devidamente acolitado pela estrela decadente "ferreira alves", "clarinha" para os happy few, mas que também assina simplesmente "clara", romancista frustrada e ex-santanete, a quem Vasco Pulido Valente dá deu uma coça monumental na blogosfera; o namorado da clarinha, apresentador; um "gajo das empresas", que debita algumas enormidades na área da economia e um outro, o único com quem simpatizo, a quem chamam "Paulo" e que escrevia, salvo erro, no blogue "Atlântico". Pois ontem o Oliveira, num arremedo de incontinência verbal, ultrapassou as marcas da simples razoabilidade e da mais elementar honestidade intelectual. Perorava o "tribuno" acerca das sensatas declarações do cardeal-patriarca, a propósito das cautelas do casamento com um muçulmano. Pois bem, a luminária afirmou então que, se em Portugal morrem anualmente 40 e tal mulheres vítimas de violência doméstica, o cardeal devia questionar o facto de alguém casar com um português. Pensei que estava a ouvir mal, mas era mesmo verdade! Para já, estas estatístivas são falsas, uma vez que só houve, no ano passado, 12 casos comprovados de morte devido a agressões no âmbito da violência doméstica. O ideal era não ter havido nenhuma, mas os números são estes. Depois o argumento é demagógico, ao estilo da velha esquerda, dona da verdade e da moral. É que, em Portugal, à semelhança dos países ocidentais que o Oliveira tanto odeia, a violência, seja ela de que tipo for, é criminalizada. E onde as mulheres não são agredidas publicamente porque não usam véu. E onde é reconhecida aos cidadãos a liberdade de terem ou não religião e a obrigação de não a imporem aos outros. E onde os prevaricadores, nos casos que referiu, foram devidamente julgados e condenados. Pelo contrário, nos países muçulmanos, as mulheres são maltratadas, sujeitas a um vexame constante, impedidas de exercer os mais elementares direitos de cidadania. Empurradas para uma sujeição feudal e patriarcal, que a religião impõe e o poder político encoraja. Todavia, nenhuma censura é dirigida a quem fomenta e beneficia deste estado de coisas. Por exemplo, para quem não sabe, nesses "paraísos de tolerância", segundo Oliveira, se uma mulher foi violada, corre o risco de ainda ser apedrejada pelos tais defensores da moral. Por outro lado, como disse e bem o "Paulo", os dirigentes religiosos podem diariamente dirigir "fatwas" a intelectuais, a dissidentes, a mulheres que tiveram a coragem de denunciar a opressão, a jornalistas, a países, a civilizações. Podem declarar à vontade o seu ódio, as suas ameaças, os seus incitamentos à violência. Mesmo assim, o imperturbável Oliveira e seus comparsas nem sequer pestanejam. Permanecem no seu limbo de ressentimento, de inveja social, de arrogância, de irresponsabilidade. Não esboçam qualquer indignação. Pois toda ela está concentrada na excomunhão do cardeal-patriarca, graças a um desabafo inóquo, que a esmagadora maioria das pessoas decerto subscreve. Acontece que, neste caso, sou insuspeito, pois várias vezes tenho aqui defendido posições em favor da laicidade e de não intromissão da Igreja na esfera das liberdades civis. Vem-me à memória, a certa altura, o delicioso final do conto "Civilização", de Eça. O narrador tem um sonho, onde, no Eden, Platão discute com o caseiro, autor das divinas favas. Entretanto, o atarantado Jacinto encontra-se às voltas no céu, montado numa mula escoiceante, à procura do seu paraíso perdido. Ocorre-me então imaginar o Oliveira no lugar perfeito para si: a mula. Em resumo, o senhor da imagem, à semelhança dos comparsas da "esquerda" gourmet, é cada vez mais um erro de casting: um "agitador" boçal, desonesto, primário, que ainda julga possível "épater les bourgeois". Uma crosta purulenta resultante de implantes cirúrgicos mal sucedidos. E que agora acedeu, de pleno direito, à galeria dos sacos de boxe predilectos deste blogue. Ao lado de Júdice, Menezes, Nogueira, Santana e Clara. Bem vindo!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Lembrete

João Tunes, a quem saúdo, acaba de comentar no seu blogue, de forma bem disposta e simpática, um texto meu intitulado "Há coisas que não mudam". Onde fiz uma espécie de ponto de ordem, a partir de aparentes paradoxos. Ora, numa coisa está enganado, meu caro: não ando com companhias pouco recomendáveis, como afirma em jeito irónico, nem elas estão todas do mesmo lado. Acontece que nesse texto falava de ideias. E de que nem sempre aquilo que parece é mesmo, quando se quer ir um pouco mais além. Verifico que muitas dessas ideias que tenho acolhido, foram criadas e desenvolvidas por autores de outros séculos e outra geografia. Por outro lado, a imagem do mata-borrão, embora sugestiva, que aplica para ilustrar um trajecto intelectual que creio dinâmico, não me parece a mais apropriada. Se tivesse empregue a alegoria da giesta e do pinheiro, sendo eu a giesta, estaria plenamente de acordo. Acontece que já não pertenço à geração do emprego para toda a vida, da casa para toda a vida, do fato para toda a vida, das ideias para toda a vida. E estas, mais cedo ou mais tarde, percebe-se que são ferramentas para um sentido ou para uma convicção. Se for preciso actualizá-las, tanto melhor. Claro que dá mais trabalho. Seja como for, no grupo surgido à volta do "Manifesto de Euston" e na filosofia política de Anthony Giddens, que inspirou a terceira via de Blair, encontrará o meu horizonte político-ideológico actual. No binómio identidade / transgressão o tema único que aplico à arte. Bom Natal.