Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Nocturno em que nada se ouve

No meio de um silêncio deserto como uma rua antes do
crime,
sem sequer respirar para que nada perturbe a minha morte
nesta solidão sem paredes
deixo a minha estátua de terra limpa,
aventuro-me na lentidão da chuva
numa descida interminável,
sem braços que alcançar,
sem dedos para inventar a escala que sai de um piano
invisível,
sem outra coisa que um olhar e uma voz
que esqueceram de que olhos e lábios partiram.

o que são lábios?
o que é um olhar?

a minha voz já não me pertence:
dentro da água que escapa
dentro do ar que me foge
dentro do lívido fogo que corta como um grito.

e no jogo errante de um espelho frente a outro
cai a minha voz,
a minha voz que cresce
a minha voz que queima
dentro de um bosque de gelo:

aqui
deste lado
o barulho do mar onde tudo esqueci
onde ninguém me sabe.

in Labirintos

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Nocturno Estátua

Sonhar, sonhar a noite, a rua, as arcadas
e o grito da estátua desdobrando as esquinas.

correr até à estátua e encontrar só o grito,
querer apanhar o eco e sentir apenas um muro,
correr até ao muro e ver-me dentro de um espelho.

descobrir no espelho a estátua assassinada
retirá-la do véu de sangue
da sombra desenhada no mármore

vesti-la depressa
acariciá-la como uma irmã imprevista
brincar com a curvatura dos seus dedos
sussurrar aos seus ouvidos cem vezes, cem, cem vezes
até ouvi-la dizer: "toca-me toca-me suaves olhos
ensina-me o que esqueci ao nascer".

in "Labirintos"

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Fragmento Dois

lágrima a lágrima
o sol da terra destila
a respiração das pedras

a inquieta passagem
do vento
por entre as áleas:

aparição fugaz
a da hera
quando abraça a árvore

in "Labirintos"

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Fragmento Um

Lembro-me ainda mal dos dias,
como era difícil chamar os mistérios,
os inumeráveis obscuros lugares

sair dos campos gelados e
tocar de perto a palpitação
dos lábios demorando-se no fogo:

era o uivo dos cães
confundindo-nos com a própria noite

eram nomes puros
nomes duros
nomes cúmplices
revelando transparente refúgios abertos.

vieram então as primeiras chuvas,
longínquas as notícias da neve
- esse imenso cortejo das aves
buscando o chão da terra.

erguido como um arco de fogo
num canto da memória
ficou porém um retrato:

da moldura pendem ainda
os lugares matinais onde
as vozes se procuram,
o aroma das algas,
uns sapatos para os caminhos
que ninguém percorre,

mais além as vestes de um anjo
ardendo na berma do asfalto...

é fácil pois a contagem dos dias,
esse exíguo espaço
entre dois rastos de um sonho
ou duas libélulas sacudindo o orvalho

eis como surge
num relance
a fase das águas:

para o rio continuarei a atirar pedras.
por necessidade.

in "Labirintos"

domingo, 2 de julho de 2006

Fresco

eis a exaltação das rosas
à passagem da luz:

apenas a terra só prometida,
como palavras talvez verdadeiras
como barcos talvez clandestinos.

eis a recordação de outro lugar,
a doçura das romãs,
as cidades adormecidas,
as oferendas de luz
ao recolhimento dos olhos:

apenas movimento sem destino
na intimidade das sombras

apenas uma aldeia. um sinal.


in "Labirintos"

quarta-feira, 31 de maio de 2006

6 Variações


INDIFERENÇA
Gostamos de ver o charlot
guerrear com as nossas
estátuas de gelo

ZEN
Gostamos de percorrer
ramo a ramo
o lótus adormecido
nas nossas mãos cegas

SONHO
Gostamos de pintar uma asa
no pó das cavernas profundas

DESEJO
Gostamos de não esperar
o gosto acre do outono,
a dança ímpia da primavera

NAXOS
Perguntam-nos que flor pode ter
o nome de ariadne:
se fulgor de cavalos jovens na neve,
se espelho reflexo de água

NOCTURNO
Chama-te a minha voz
e chama apenas
o teu nome em mim...

in "Labirintos"

domingo, 28 de maio de 2006

PÓS - POEMA (2)

passam os rios
como deuses
e as mãos revelam-se
no seu refúgio de areia.

passam os deuses
como sombras iluminadas
e logo se desenham nos álamos
bocas caiadas de verão.

passam os dias
como flâmulas cinzentas,
batalhas, frutos, searas

e um torpor longínquo
e amante nasce

uma insaciedade humana
cresce como o ganges
nas nossas veias
e torna-se imensa
como os deuses
como os rios

in "Labirintos"

domingo, 14 de maio de 2006

PÓS - POEMA (1)

é tempo de escutar o poema
escorrer por dentro

gota a gota

uma chuva de que não há notícia

in "Labirintos"

quinta-feira, 4 de maio de 2006

ORCHATA DE CHUFA

a Garcia Lorca

Descia as serras em Outubro
se a respiração num repente parasse
de mãos estendidas para os olhos.

esquecia o fino azul das manhãs
se presa fácil de uma vertigem:

embriagar de cores meu destino
em cada constelação uma cigana
uma doce cabala de dias férteis
e nuas terras prometidas.

inventaria um estilhaço qualquer
para me ferir nos olhos
e tombar no chão da tribo
no sul nas marés.

faria rodar em mim
ainda o pião ainda a criança
- e mesmo assim percorrer
a fogueira nocturna e nunca
acordar os outros, estes outros.

na geografia simples de um rosto,
como na de um país,
há por vezes uma erosão
que devasta a pele e a pedra,

um sopro de sementes fuzilando os lábios
hasta el corazón del sueño . é

um grito é um beijo. são
mil searas andaluzas
numa lenda de terra queimada.

in "Labirintos"

quinta-feira, 27 de abril de 2006

a Andrei Tarkovski
na rota da luz


depressa se arrasta o corpo
até à luz, enquanto se pintam
na estepe os últimos ícones

depressa os dedos alcançam
a margem, enquanto
os barcos inventam outros barcos

é só o tempo de escutar
como as sombras se esvaziam
e te atravessam os lábios
os mais claros objectos
as mais fugazes cintilações.

in "Labirintos"

segunda-feira, 10 de abril de 2006

BLITZ

em tebas o nilo,
mais além um chão de névoa:

fazer da vida
um oceano sem náufragos
um risco largo e ardente
nenhum búzio inútil
o mar é tanto.

expulsar as aranhas
dos muros, das profecias, dos altares,
surpreender a cidade
quando beija os seus fantasmas

e mesmo assim poder dizer-te,
na berma do apocalipse,
quantos mortos sentiram o frio
dos teus dedos

quantas vezes o céu estalou
pela noite dentro,
aceso ao sinal dos teus passos.

em frankfurt um retrato
esquecido numa manhã de facas
-espuma na boca-
no mármore a juventude

velha lenda, velha senda,
baile de máscaras em Veneza.

dos muros caiados
a raiva escorre
-nunca mais um nome
para a nossa sede:
andreas baader

in Labirintos

sábado, 8 de abril de 2006

VINCÈNS

para Van Gogh,
algures em Saintes-Maries


Há uma flandres inteira
de campinas rasas,
uma flor suicida
entre o céu e a neve
entre lábios e vésperas de sol

há uma meda de palha
esmagada
sob o ar tenso de Agosto.

mesmo errante nas colinas
olhando-se nas ravinas
uma lua, pobre louca,
num capricho de reflexos

não é ainda a agonia,
o demónio ainda não ruge,
o portal abre-se ainda
e a loucura passa além.

vai: os altos dragões de rocha,
atentos a todos os voos,
já previram desde há muito
a paz para esta noite.

sobre as suas negras chamas,
do grande céu verás chover
os fogos, frutos coloridos
que fazem estalar os ciprestes.

e se gira, gira, gira
o teu céu, é que ele suscita
a abundância, é que ele agita
a paisagem onde é sempre meio-dia.

in Labirintos

sábado, 1 de abril de 2006

Nkonsonkonson

era verde verde
o rio quebrado
na minha garganta

nas vagas um rodopio
de incêndios amantes

na proa o sinal
para o princípio dos ventos,
quando o princípio
era o mar


melhor seria
chamarem-me as navegações
para o mistério das marés:

na voz
um porto ausente

nos flancos
um leme partido

no mármore, mais ao sul,
um só horizonte
de bússolas salgadas
à espera de movimento.


in "Labirintos"

sexta-feira, 17 de março de 2006

NSATSA

eu sei que a relva é suave
e nos poços há punhais
de mel

eu sei que há um poema selvagem
galopando
no último reduto das coisas

eu sei
do fingimento,
das horas inúteis


na véspera, meu amor,
há sempre lábios sujos
olhos tardios
errando
p’lo vértice da chuva.


in "Labirintos"

quinta-feira, 2 de março de 2006

GYE NYAME

como um desfile de cegos
ao som do alaúde desperto na água tranquila
dos cristais,

assim o dia se estende pela lentidão do ar
que atravessa os muros,
pelas mãos que se despem na neve
- únicos deuses conhecidos

assim o mais leve, o mais límpido rumor
de setembro,
um nome de sangue esquecido nas navalhas,
a respiração das pedras.


como desenhar um bosque de chuva
numa parede de ninguém?

como desenhar um rosto, o meu rosto,
só pelo tempo de os lábios
tecerem o musgo
e as searas fustigarem o leito da luz?


assim um dia meus olhos serão maiores

assim as laranjas se espremem
como seios de rainha

assim a noite se afunda
na palpitação do fogo

O que fazer do meu rosto
- perguntarás-
podia falar-te do mistério dos corvos
em fuga,
quando o gesto das asas parece lembrar
a inquietação desses náufragos
algures entre o sol e o barro.


desvendo antes o segredo
onde eu nascia e somava na pele
os séculos, as frias moradas
daqueles países da ausência,
o incessante respirar,
o retomar do canto.

para vós plantei a aldeia e o trevo,
o talhão de rosas
que arredonda os gestos e os sonhos:

em cada pétala
há um rosto
do teu rosto.


In "Labirintos"

domingo, 26 de fevereiro de 2006

MSUSYDE

Da minha sombra deserta
os olhos avançam,
inventam a inquieta
brancura do poema.

da tarde interminável
em que algo me recorda
começa a busca das palavras,
do sim ou do não,
não há diferença:

é lá que te procuro.

das sílabas cintilando
como um exército de pássaros
digo
um campo de centeio
numa tarde de infância,
faísca ondulante
ou tranquila agitação,
não há diferença:

é lá que te procuro.


in "Labirintos"

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

AYA

Breve
uma seta ou uma gota
é a raiz do sangue, deste gesto,
do presságio de uma onda
assaltando a falésia.

breve
o lugar,
esta mortalha de neve sobre as pedras
iluminando a forja solar dos cabelos:

nunca cantei outra seara
nem outra audácia
ao vento oblíquo.

In "Labirintos"

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

FIHANKRA


todos os dias são iguais
e nenhum se parece:

assim
não te mandarei como outrora
um fruto para os teus lábios,
anunciando o breve rumor
dos meus passos
afundando-se na neve.


todos os dias são iguais,
como a pureza, como a morte,
tudo trazem tudo levam:

são partos de luz sem destino nenhum


in "Labirintos"

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

BIRIBI WO SORO


fugiram de mim
as paisagens
de tanto as olhar:

quer-nos a luz
para o chamamento
dos poços.


nos espelhos
agora soltos
meus dedos são marinheiros bêbedos

in "Labirintos"

NSIREWA


diz-me como sentes
selvagem a pele,
onde nasce a primavera
nos teus lábios.

às vezes
quando a cegueira é estar ainda aqui
cozo-me nos muros, subo às torres e
nu
planto-me búzio sem memória
na ternura da terra.


in "Labirintos"