Esta semana fui a um jornal local com a finalidade de por um anúncio: “Homem só busca romance consigo mesmo”. Não deixei número, nem direcção, nem email. Esta iniciativa faz parte de uma série de acontecimentos simbólicos que vou empreender para demonstrar a mim próprio o interesse que tenho pela minha vida. Geralmente, delegamos a responsabilidade de brindarmos afecto a outras pessoas e enfadamo-nos quando não obtemos o que desejamos. E ainda que pareça pretensioso, quis dar-me isso que ninguém me pode outorgar. Porém, ignoro o que é que desejo realmente de mim para mim. Considero pois esta acção um bom começo para este romance. Significa muito saber que me busco de forma autêntica. Quem sabe o que se irá passar quando me encontre. Parece absurdo, mas talvez seja esta uma das inúmeras maneiras de tolerar o isolamento no mundo contemporâneo. O mais provável é que esteja a exagerar, como sempre. Qual será a seguinte cena: um encontro às cegas, flores no trabalho, chocolates, cinema, sexo…? Tudo é possível...
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terça-feira, 9 de outubro de 2007
sábado, 25 de agosto de 2007
Intermezzos de Verão
- Uma casa cheia de livros é bem mais interessante do que umas vistosas inutilidades topo de gama, destinadas a fazer roer de inveja os amigos e impressionar as namoradas.
- Um "até depois" nos olhos é a pedra de toque na afinação de um tempo que há-de vir.
- Gente sem delicadeza e sem uma alegria intensa que transborda naturalmente cansa-me, cansa-me de morte.
- Colocar um pouco de eloquência no que se quer dizer, da mesma forma que se desvela toda a discrição de um brilho improvável no que não se sabe dizer: a atenção do poeta.
quarta-feira, 2 de maio de 2007
O encontro
Quando se percorrem países linguísticos, tem-se por vezes a sensação de não se ser mais que uma personagem ou figura absolutamente contingente, virtual, permutável com aquelas que são lidas. Como num leque de espelhos ou universos, em que o passado, o presente e o futuro se confundissem em pura possibilidade.
Assim, enquanto a mula bebe água no riacho, leio a frase de As cidades invisíveis de Italo Calvino: «O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade» e logo me vejo na garupa do cavalo do porta-estandarte Cristóvão Rilke (antepassado suposto do poeta) cavalgando, cavalgando, cavalgando pela noite, pelo dia, pela noite. Também aqui não há montanhas, apenas uma árvore. Árvore que de noite se incendiou com a mulher que salvei das cordas; no meu peito, «palavras luminosas» trazidas de longe.
Mas porque estou cansado da lucidez da noite e preciso de uma luz mais doce, procuro outra árvore à sombra da qual me recosto. Sou então o Estrangeiro da Anabase de Saint-John Perse, «que passava». Converso com a donzela (nada romântica), que a meu lado se sentou. Coloco-lhe «bagas amargas» sobre as mãos: «Eu vos saúdo, minha filha, sob a maior das árvores do ano». "Nasceu um potro sob as folhas de bronze". Diz ela, ou eu, não sei. Escutamos as folhas que nos escutam: e eis um grande barulhar numa árvore de bronze. A mula afasta-se um pouco. E alguém diz: «Eu vos saúdo, minha filha, sob o mais formoso vestido do ano».
Assim, enquanto a mula bebe água no riacho, leio a frase de As cidades invisíveis de Italo Calvino: «O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade» e logo me vejo na garupa do cavalo do porta-estandarte Cristóvão Rilke (antepassado suposto do poeta) cavalgando, cavalgando, cavalgando pela noite, pelo dia, pela noite. Também aqui não há montanhas, apenas uma árvore. Árvore que de noite se incendiou com a mulher que salvei das cordas; no meu peito, «palavras luminosas» trazidas de longe.
Mas porque estou cansado da lucidez da noite e preciso de uma luz mais doce, procuro outra árvore à sombra da qual me recosto. Sou então o Estrangeiro da Anabase de Saint-John Perse, «que passava». Converso com a donzela (nada romântica), que a meu lado se sentou. Coloco-lhe «bagas amargas» sobre as mãos: «Eu vos saúdo, minha filha, sob a maior das árvores do ano». "Nasceu um potro sob as folhas de bronze". Diz ela, ou eu, não sei. Escutamos as folhas que nos escutam: e eis um grande barulhar numa árvore de bronze. A mula afasta-se um pouco. E alguém diz: «Eu vos saúdo, minha filha, sob o mais formoso vestido do ano».
quarta-feira, 25 de abril de 2007
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
A cena do queijo
Ontem fui ao Serra Shopping na Covilhã. Não em passeio domingueiro, mas por razões bem precisas: comprar uma placa de expansão USB 2.0 para o PC. By the way, aproveitei para trabalhar. Trabalhar? Perguntarão os mais imprevidentes. Sim, observar os outros. Começando pelas famílias completas, com prole, às praticamente, ainda sem ela, às em vias, com ou sem reservas à vista. Depois o típico cinquentão de bigode, agarrado discretamente a uma brasileira a quem o bacano ofereceu trabalho em "serviços domésticos", tratou da papelada no SEF e na IGT, sustenta com uns chequezinhos passados sobre a conta da empresa, para pasmo do fisco, e a moça, claro está, não se fez rogada: "fominha como lá no sertão é qui não, cara". Também alguns vagamente conhecidos do Liceu da Guarda, agora convenientemente circunspectos na sua roupagem conjugal, mas deixando escapar um ar enfastiado quando ela não resiste a mais uma montra, seguindo-se um olhar implorativo ao pobre diabo, literalmente preso pela braguilha, para, num assomo magnânimo, liberal, aligeirar a carteira em troca de mais um trapinho para a sua "Lurdes". Os grupinhos de mulheres de meia idade a admirar os electrodomésticos na Worten, numa acesa disputa a ver quem descobria a maior pechincha, numa excitação muito semelhante à da assistência a um show de strip tease masculino. Alguns representantes da burguesia local, tradicionalmente estúpida e arrogante. Os pestaninhas serranos, com penteado à jogador de futebol (esqueçam o Paulo Bento), lançando a fateixa, muito, mas muito discretamente, ao mulherio mais desprevenido. Uma loira (?) irritante a fazer boquinhas ao namorado, tipo criança mimada e encantadoramente perversa, à minha frente numa fila onde fui obrigado a permanecer durante 10 minutos para a tômbola dos prémios. Mas também gente com ar urbano e despreocupado, que vai "ali", mas não é "de ali", que cintila de outra forma e cujas noites deverão ser muito mais interessantes do que os dias. E pronto, lá me despachei. Foi mesmo divertido.
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