Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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domingo, 6 de julho de 2008

Crimes exemplares - 23

Um belo dia, G. Singh deixou o Punjabe, no sopé das montanhas do Norte da Índia. Debruçadas sobre os arrozais em socalco e a linha do Ganges no fio do horizonte. Era adepto da religião dos sikhs, uma espécie de meio termo entre o hinduísmo e o sufismo islâmico. Andou pela Europa, numa diáspora mercantil apanágio dos seus antepassados. A ausência dos gurdwaras, os templos sikhs, nunca foi para ele, ou para a sua família, motivo de preocupação. Como era um amritdhari, ou seja, um iniciado na ordem Khalsa, usava longas barbas e o tradicional turbante cor de laranja. Motivo pelo qual, depois do 11 de Setembro, era brindado frequentemente com insultos aqui irreproduzíveis. Não há nada pior do que a ignorância arregimentada pela estupidez. Numa bela tarde de Maio, Singh chegou a Portugal. Não demorou a instalar-se, com a família, numa pequena cidade de província. A vida não lhe estava a correr nada mal e o haumai estava cada vez mais longe. Num certo fim de tarde, circulava na sua carrinha em direcção a casa. Ia devagar, como habitualmente. Dessa vez, porém, atrás dele seguia um condutor que não se cansava de apitar, gesticular com veemência e lançar alguns impropérios. O outro prosseguia, imperturbável. Enquanto o frenesi do homem de trás aumentava de intensidade. Ao chegarem a um semáforo, Singh saiu do carro, mantendo a compostura de um príncipe. Acercou-se do outro e, sem uma palavra sequer, fez-lhe um profunda vénia. Perante o desassombro do acto, o frenético apitador deve ter ficado sem pinga de sangue. Pois arrancou de imediato, cabisbaixo e sem esboçar sequer uma reação.

NOTA: Este episódio foi por mim testemunhado há cerca de um mês atrás. Todo o enquadramento foi obviamente ficcionado.

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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Crimes exemplares - 22

Com uma denúncia, começa sempre com uma denúncia, naquele café está uma máquina de brindes que dá dinheiro. Este país é muito assim, pequenino e medricas, um rosto irrelevante (que seria desprezível se por acaso atentássemos nele) escondido atrás de um telefone, de um email, de uma folha de papel. O arguido vinga-se, já que falaram demais, agora é ele quem não fala. Na verdade não é desforço, é estratégia: o advogado disse-lhe que se cale, que nada confesse e ele cumpre, que o doutor é que sabe. É-lhe perguntado o nome, a filiação, a naturalidade. Olha receoso para a esquerda do púlpito, está na dúvida. Ao aceno subtil do advogado, que finge cofiar a barbicha, responde a tudo, mas responde baixinho. Hesita envergonhado no segundo nome do pai, que não chegou a conhecer. Se já respondeu em Tribunal. E ele mudo, os olhos aflitos e os sons a quererem fugir-lhe da boca cerrada, a cabeça que acena ligeiramente, não se percebe se num não se num talvez. Então o juiz percebe a razão dos silêncios, dos balançares, da estranha linguagem corporal e lembra-lhe de que, quanto aos antecedentes criminais tem que falar e falar com verdade. Ele não acredita, acha que é uma armadilha; um embuste para que desagrafe a boca e confesse o chorrilho dos seus pecados, e por isso continua calado, os olhos agora no chão, fixos nos nós do soalho. Finalmente o advogado, que responda ao meritíssimo, o silêncio vem depois. O corpo descontrai, e o alívio que dele flui quase se ouve contra os quatro cantos da sala. Que não, que nunca respondeu nem esteve preso.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Crimes exemplares - 21

Numa cálida noite de sábado, Susana foi andar de bicicleta no parque da cidade. Aproximavam-se as férias do verão e nada melhor do que antecipar o momento, desfrutando daquela noite magnífica. Quer dizer, suponho eu. Havia também o seu ex-namorado, que uns meses antes fora trocado pelo simpático Jorge, que vivia de uns biscates. O outro desenvolveu uma estranha fixação por ela, seguindo-a por todo o lado. O desgraçado era visto frequentemente a arrastar a asa, fazendo-se sempre acompanhar pelo seu cão, um perigoso pastor alemão. Naquela noite, deu-lhe para perseguir a bicicleta, tendo derrubado e mordido furiosamente a amorosa Susana, nas pernas e braços. Falo do cão, claro. O pior foi o rasgão nas calças novas da moça, que tinho ido comprar a uma conhecida cadeia de pronto a vestir. A rapariga, tolhida de medo, foi incapaz de esboçar uma reacção. Digo eu, porque fica sempre bem dizer isto. Comprova a iniquidade da agressão. Pois o pânico de Susana apenas terminou quando apareceu Manuel, primo da Alzira. Percebendo a gravidade da situação e temendo pelas consequências, retirou do carro a sua espada de samurai, pôs uma fita à volta da cabeça e degolou o cão. Depois, ao constatar que o ex-namorado de Susana fugia do local para ir cagar, correu na sua direcção, amarrou-o a uma árvore e obrigou a contar-lhe o resumo do últimos episódios das 38 telenovelas que passam na TVI, enquanto esperava pelos agentes da ASAE, PSP, uns populares que "iam a passar por ali, quando...", o Zé Tó, mirone profissional, o qual, segundo as más línguas, "também pegava de empurrão", e a irmã gémea da Alzira, cujo nome não me ocorre. Ah, e o INEM! O sofrimento de Susana ameaçava eternizar-se, pois a ambulância demorou duas horas a chegar. Tempo durante o qual os bombeiros e os elementos do INEM estiveram a jogar à moedinha para ver quem lá ia. Finalmente, lá chegaram ao Hospital, com a Susana balbuciando umas palavras em alemão. Ainda tentei saber o que se passava no bloco das urgências, mas o segurança não havia maneira de me deixar passar, entretido a ver uns vídeos escaldantes no seu telemóvel. Soube mais tarde que o Jorge e a Alzira tinham casado. O primeiro encontra-se regularmente com o Manel, como naquele filme dos dois cóbois, mountain qualquer coisa.

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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Crimes exemplares - 20

Tinha ido a mais uma sessão perfurante ao seu dentista. Depois da conversa de circunstância, veio o momento em que o médico desatou a fazer perguntas imediatamente após a empregada ter colocado o tubo da refrigeração na sua boca. Ocasião pois para exercitar onomatopeias expressivas e linguagem gestual básica. Passado este supremo momento comunicacional, vieram as sondas, as brocas, umas coisas que apitam por tudo e por nada, outras que aquecem, outras ainda de utilidade desconhecida mas certa. No preciso momento em que os neurotransmissores começaram a dar os sinais de alarme, ouve-se na rádio a voz de Robert Plant, no celebérrimo tema "Stairway to Heaven", dos Led Zeppelin. Acto contínuo, o dentista começa a trautear a música, num karaoke esforçado, mas sincero. Primeiro entrou em pânico. Vieram-lhe à lembrança imagens de uma conhecida sequência do filme "O Homem da Maratona", onde um ex-torcionário nazi foragido - por sinal dentista e uma réplica de Mengele - arranca uns dentitos a sangue frio ao protagonista, interpretado por Dustin Hoffman. O problema é que aí também havia "ambiente sonoro", embora a música fosse outra: Wagner, comme il faut. Por outro lado, recordou os momentos felizes que passou ao som daquela inesquecivel balada, na sua adolescência. Ao fim ao cabo, associada às maiores "tauladas" que tinha apanhado, num certo período. "Será que o dentista tem um sentido de humor rebuscado?", "O que irá ele fazer a seguir?", as perguntas sucediam-se na sua cabeça. Acabou por encolher os ombros. Afinal, o trautear era a forma possível e inocente que o outro encontrou para quebrar a ansiedade, uma maneira indirecta de lhe dizer: "Vá, isto é um instantinho, não vai doer nada". Claro, só podia ser isso. Embora a ironia da situação fosse por demais evidente... Foi nessa altura, que um sono pesado se abateu sobre ele, diluindo-se o branco das paredes numa vertigem incandescente que o puxava para longe dali. Quis reagir, mas era já impossível. Por último, ainda conseguiu distinguir o sinal que o médico dirigiu à empregada e a resposta dela: "Jawohl, herr doktor"...

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sábado, 1 de dezembro de 2007

Crimes exemplares - 19

É uma mulher de 35 anos. Por volta das seis da tarde, quando regressava do trabalho, lembrou-se que deveria passar pelo supermercado. Tinha-se esquecido de comprar ovos e farinha na compra do mês e hoje queria oferecer um bolo a si própria. Há muito tempo que não fazia um bolo. Não tem família. Vive sozinha desde a morte da mãe. Gosta de coisas simples, do gato, dos vasos que rega diariamente, do sol, e de vez em quando de fazer bolos. Agrada-lhe o tempo de espera enquanto o bolo coze. É como se sentisse que mesmo seguindo rigorosamente as receitas, os resultados não dependessem exclusivamente de si. Quando abre o forno e se depara com a forma e o cheiro final é sempre um momento de grande satisfação, até nas ocasiões em que o resultado não é o mais desejado. É daquelas pessoas que acha que nada acontece por acaso e que para tudo há uma solução, e portanto, não se aborrece quando o bolo sai do forno completamente queimado. As amigas estão quase todas casadas. Algumas já têm filhos. No trabalho perguntam-lhe dia sim, dia não se já arranjou namorado. Responde-lhes que se está solteira é porque Deus assim quer e que se sente feliz com a vida que tem. Esperar não é coisa que lhe cause angústia. Talvez graças às horas que passa no jardim a compor a relva, aqui e acolá remexida. Sobretudo nos dias em que o aroma do bolo se desprende do fogão.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Crimes exemplares - 18

L. é um homem de 55 anos. Há quinze anos que está reformado por invalidez psicológica, a família preferiu assim. Nunca casou e desde a morte dos pais passou a viver na casa do irmão mais velho que lhe arranjou um biscate onde se vai entretendo e juntando mais uns tostões à magra reforma que recebe do estado.
L. quase não fala. Até um ‘bom dia’ é coisa difícil de se lhe arrancar dos lábios. Não se sabe ao certo se vive de acordo com a sua vontade; nunca abriu a boca para dizer o que queria assim como nunca se queixou do destino que a família lhe escolheu. Vive hermeticamente dobrado sobre si próprio e os seus olhos negros terrivelmente brilhantes e irrequietos como o voar de uma mosca parecem ganhar alguma tranquilidade apenas quando o vemos regressar das longas caminhadas que faz todos os dias.
Na família não há memória de alguma vez L. ter tido amigas ou amantes. Pelos trinta e poucos, as irmãs, substituíram-se à sua extrema timidez e fizeram-lhe um arranjinho com a solteirona lá do bairro. Era vê-los todos os domingos sentados no banco de pedra em frente ao café, ele sem abrir a boca debruçado sobre os joelhos e ela tagarelando a tarde inteira fazendo as perguntas e respondendo por ele. Mas nem a anafada da J. resistiu a tanta apatia e continua até hoje sozinha à espera de arranjar marido. Anos mais tarde, o primo M., que tem fama de gabiru, pegou nele e levou-o às putas, mas L. nem uma nem duas, voltou de lá sem saber o que a coisa era.
A família de L. há muito tempo que não questiona a sua estranha existência. Dão-lhe cama e roupa lavada e lá deixam o homem viver à sua maneira. Das longas e misteriosas caminhadas adivinham apenas que regressa feliz. De tal forma que ninguém estranha umas manchas vermelhas que às vezes aparecem nos sapatos.

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domingo, 14 de outubro de 2007

Crimes exemplares - 17

Aconteceu-lhe morrer no dia dois de Agosto de dois mil e cinco. Estava sentado à secretária do seu escritório, enquanto passava os olhos por um relatório, que ele próprio escrevera, sobre as condições de trabalho no segundo bairro da cidade. Foi encontrado pelo seu único colega de trabalho, que regressava ao emprego depois das férias. Este resolveu, de imediato, tomar a seu encargo comunicar com os familiares do morto. Todavia, essa tarefa revelou-se impossível desde o primeiro minuto. Não encontrou, em 12 anos de trabalho, qualquer pormenor da vida pessoal do outro, por mais insignificante que fosse. Reflectiu e descobriu que ele próprio nunca lhe revelou nada sobre a sua vida. Entrou em profundo desânimo. Tinha passado as férias a dois quarteirões dali, fechado em casa, sozinho, a ler. Nem por um instante lhe havia ocorrido contactar o colega, que devia estar no escritório a trabalhar. Sem conseguir contactar ninguém, sem sequer saber onde era a casa do antigo colega, tomou também como sua a tarefa de organizar o funeral. Chovia e ele era a única pessoa presente. Por falta de dinheiro, o colega jazia agora num despropositado sítio do cemitério, entalado entre o muro exterior e um regato que passava perto. Segundo o relatório que o seu antigo colega escrevera, sabia-se que vários habitantes daquela parte da cidade haviam morrido de doenças associadas à contaminação proveniente dos cadáveres, provavelmente pela água daquele regato. Ao voltar ao escritório, no dia seguinte ao funeral, descobriu que este teria que fechar, porque o único cliente, o município, não tolerara o atraso na entrega desse mesmo relatório. Sem emprego, voltou a casa, despiu toda a roupa, desligou todas as luzes e deitou-se na cama, à espera.

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domingo, 8 de julho de 2007

Crimes exemplares - 16

- Vá, explique lá outra vez direitinho como é que tudo se passou.
- Então foi assim. Eu estava na cozinha a partir pão com a faca nova. Chega a minha mulher, escorregou no tapete de lona e veio disparada em direcção a mim.
- Mas julga que nós somos parvos ou quê? E como é que explica o resto? Não me diga que foi obra do Espírito Santo!
- Sabe, é que ela era de ideias fixas: veio contra mim sete vezes...

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quinta-feira, 8 de março de 2007

Crimes exemplares - 15

Um dia estava eu a guardar as galinhas no meu terreno veio um cão de antónio moleiro espantou-mas e depois atrás do cão veio o filho e o pai ou seja o tó moleiro e diz o filho para o pai ataque-a daí que eu ataco daqui para me apanharem a galinha e eu vim ter com eles e disse-lhes a galinha é vossa ou é minha a galinha saltou do meu terreno para uma passagem de todos os que temos lá o terreno mas ao lado o terreno é dele a galinha veio para a minha mão trataram-me mal e ainda me chamaram bêbeda e outros nomes peguei numa pedra a mandei-a contra o moleiro que caiu inteirinho no chão sem ai nem ui à noite fizemos a galinha para o jantar parecia uma festa.

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domingo, 21 de janeiro de 2007

Crimes exemplares - 14

No momento em que acordou não aconteceu nada. Como sempre, esperaria que os instantes seguintes o devolvessem à realidade. Cujos contornos se iriam tornando cada vez mais familiares e previsíveis. Desta vez, nada disso sucedeu. Uma luz ténue e espectral iluminava um pequeníssimo compartimento, no qual se encontrava. Reconheceu o que pareciam ser uns painéis, com botões e luzinhas a piscar. Por todo o lado, objectos metálicos incorporados, que produziam um zumbido constante e uniforme. Naturalmente, já se tivera apercebido da inexistência de gravidade no cubículo. "Desta vez a Joana esmerou-se", pensou. Fazia já algum tempo que ele e sua mulher mantinham uma espécie de jogo de alto risco. Consistia em, alternadamente, um proporcionar ao outro uma situação inesperada, radical, absolutamente realista. Criada ao pormenor, com recurso a uma empresa que ambos criaram, para que as emoções fortes não faltassem. Nessa altura avistou a Terra, lá em baixo, envolta no seu halo atmosférico. "Desta vez, pelos vistos, não olhou a meios". "Meteu-me num satélite durante umas horas. Nem sei como conseguiu isto". Mas desde o início havia qualquer coisa que lhe estava a escapar. Algo que transformara o que seria mais um lance do jogo a dois num pesadelo sem explicação. "Esta era a minha vez de jogar!!!", gritou. E tinha-o feito: a sua mulher deveria neste momento estar a ser transportada num contentor empilhado num cargueiro em pleno oceano Pacífico. Que a certa altura seria deitado ao mar. E nada mais aconteceria. Ninguém levantaria suspeitas. Seria esse o seu último lance neste jogo. Foi então que entendeu tudo: ela tivera a mesma ideia que ele. Antes ou depois? Teria sobrevivido? Um pavor indizível paralisou-o. O jogo tinha acabado. E quando a reserva de oxigénio do seu fato espacial se esgotasse, começaria a eternidade...

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quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Crimes exemplares - 13

Na loja de ferragens e utilidades do Sr. Augusto, deu de caras com ele. Era mesmo o antigo professor de História no Liceu! Baixinho, barba espessa, voz possante, nada condizente com a estatura. Imediatamente foi assaltado pelas recordações trazidas pela presença do magister. Foi seu professor durante dois anos, já no final do secundário. Quando chegou, era um estreante na docência. Um porreiraço que concedia mais meia hora nos testes, se preciso fosse, e ainda dava boleia aos retardatários. Um ano depois, a coisa mudou. A vã glória de mandar subiu-lhe à cabeça. Certo dia, durante um teste, ignorando tal metamorfose, escreveu um comentário crítico à forma como determinada pergunta era feita, um bocado a armar ao pingarelho. Foi quanto bastou para que o barbudo o tomasse de ponta, penalizando-o nas notas. Já no final do ano, recordou-se, tinha na ideia distribuir no Liceu uma revista prafrentex, editada por jovens da localidade e na qual colaborava. Pelo que foi ter com o "barbas", que na altura exercia funções directivas, dando-lhe conta do incendiário propósito. Afinal, para coisa tão inocente, pensava ele, bastará esta formalidade, ditada pela cortesia. "Não permito!", foi a resposta do animal. Acontece que o dito cujo estava agora à mão de semear. "Ocasiões como estas não aparecem duas vezes", pensou. Dito e feito: agarrou numa moto-serra que estava exposta e pediu para experimentar. Como um raio, aproximou-se do ex-professor e, simulando que tinha perdido o controle, largou-a. Em segundos, a perna do outro já tinha sido atravessada pelos dentes do maquinismo. A parte do osso é que resistiu mais. Quando os presentes acorreram, aproveitou para desaparecer. Ainda olhou para trás, desejando ao recém-amputado uma longa docência sobre a história dos piratas. De preferência, ouvindo-se o ruído de um taco de madeira a bater no soalho...

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sábado, 25 de novembro de 2006

Crimes exemplares - 12

A festa durava há horas e parecia ter atingido o seu auge. Os convivas iam abandonando aos poucos uma espécie de formalidade transportada do quotidiano e difícil de romper. Onde a polidez calculada dava lugar ao inesperado. Todavia, ele sentia-se perdido no meio de tudo aquilo. Não que negasse uma parte ínfima do mundo - no centro da qual se encontrava - um mundo cujo poder e forças experimentava. Não que lhe fossem estranhos os perfumes inconfundíveis trazidos pela noite. Tudo se devia à sensação de não ver senão o vazio, onde esperava encontrar o esquecimento. De repente, deixou de entender o que os outros diziam. Parecia que falavam uma língua misteriosa e exótica, a que lhe era vedado o entendimento. Parecia que tudo aquilo tinha deixado de fazer sentido. Parecia que havia sido escolhido para uma provação que até ali tinha sempre partido de si. O desconforto paralisava-o. Saiu. No hall de entrada, mal reparou no olhar da rapariga do bengaleiro. Pensou convidá-la para dançar, mas limitou-se a recolher o casaco. Ainda a ouviu dizer: "Só é nosso o que esquecemos". No exterior, o ar fino por momentos tranquilizou-o. Morava no mesmo quarteirão, duas ruas à frente. Mas a cidade parecia decidida a contar-lhe os seus segredos mais funestos. Logo à frente, deparou-se com um rasto de armaduras gigantescas, ensanguentadas, espalhadas pela rua. Um coro de gemidos acompanhava as proporções desumanas do cenário. Desembocou numa praça cheia de gente, como se fosse já de dia. Percebeu que estava perdido. Perguntou a alguém o caminho para casa. Que, afinal, era logo "ali", numa rua perpendicular. Só que as coisas não eram assim tão simples. Mal saiu da praça, deu conta do aspecto bizarro das casas. As cores tendiam para o escuro. As pessoas confluiam para uma espécie de túneis entre os edifícios. Entrou num deles. A passagem era estreita. Parecia destinada a contorcionistas e não a pessoas comuns. Por fim, a custo, conseguiu chegar ao outro lado. Percebeu que estava ainda na parte alta da cidade e que precisava de descer, para chegar ao destino. Viu então uma espécie de corrimão que serpenteava pelas casas da encosta, com assentos individuais, que faziam um barulho arrepiante ao serem accionados. Como um funâmbulo, tomou lugar num desses assentos, iniciando a descida. À medida que a velocidade aumentou, deu logo conta que não conseguiria deter o mecanismo. Ouvia os risos dos "companheiros " de viagem, os ruídos próprios da cidade, mas agora ampliados até atingirem uma cacofonia monstruosa. As imagens sucediam-se a uma velocidade vertiginosa. Já nem pensava "como" aquilo iria acabar, mas "quando". Foi então que acordou, dentro do sonho. E só acordou fora dele quando, olhando para o lado, na penumbra adivinhou a presença da rapariga do bengaleiro.

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sábado, 11 de novembro de 2006

Crimes exemplares - 11

Why didn't you call on me, why didn't you call?

É quando dizemos NÃO e ninguém aparece que tudo está certo. É quando não temos razão que temos razão. É quando um horizonte de facas nos paralisa, que aprendemos a não ser empurrados pelo medo. É quando os lugares onde gritamos pelos lugares onde podemos gritar são nossos e não esperamos que alguém venha para nos dizer que são nossos. É quando de repente estamos lá, quase lá, ansiamos pela chegada e só ainda partimos. É quando na partida não há ninguém de quem nos despedirmos, e o mundo nos espera. É quando as flores, todas as flores que um dia espalhámos pela cidade, como o estandarte de um novo tempo, como letras abertas pela neve dentro, acabaram nos nossos braços vazios. É quando de repente olhamos para o lado e a aprovação e os acenos dos outros já lá não estão, mas continuamos a avançar, nus, diante da noite. É quando percebemos que para esses outros só existimos enquanto durar a sua falta de imaginação. É quando à volta só descobrimos ruínas e sonhos perdidos onde tropeçar. É quando não queremos morrer antes da última canção. É exactamente aí. Estará lá uma corda estendida. Um sorriso para percorrermos demoradamente. O truque. E só nós saberemos.

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sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Crimes exemplares - 10

Aquela manhã tinha todas as condições para acolher uma vida pouco exaltante, previsível, em que os acontecimentos se empilhassem como maçãs numa caixa. Mas há sempre que contar com a música do acaso, ou melhor, com a cacofonia ensurdecedora do desconhecido. Que, de repente, baralha todo o cálculo, dinamita toda a previsão, esmaga toda a certeza. Saí de casa acompanhado do meu irmão, com destino a uma loja de material informático. O objectivo era comprar alguns consumíveis a preço de revenda, após o que iria apanhar o comboio à estação central. Estava tudo a correr bem, até chegarmos perto do centro comercial. Mas eis que, por causa de umas obras na estrada, esta encontrava-se vedada ao trânsito. O que obrigou a um "desvio" por "mares nunca dantes navegados", durante cerca de vinte minutos. Nesse périplo, houve de tudo um pouco: circulação pela via reservada aos transportes públicos, inversões de marcha pouco ortodoxas, pedidos de informação aos chamados transeuntes - sendo que um deles era gago - passagem de semáforos no limite, etc. Por fim, lá chegamos. Num ápice, voámos até à tal loja. Mal entrei, apercebi-me do insólito: o empregado, num vagar oriental, contava dezenas de parafusos minúsculos no interior de uma caixa, alheado da nossa presença. Dissemos então ao que vínhamos. Por fim, lá se dignou a atender o nosso pedido. Dirigiu-se ao local onde estavam os artigos e, após um minuto de reflexão - presumo que de ordem metafísica - lá trouxe o que pretendíamos. O pior foi o pagamento. Num ritmo de fazer envergonhar uma lesma, introduziu no PC os dados para as fichas de cliente. Quando ia para pagar com cartão multibanco, informou que o terminal respectivo não estava operacional. Corri até ao andar de cima, onde, numa caixa MB, esperei durante cerca de 10 minutos que dois idosos fizessem uma transferência bancária. Por fim, contas feitas, rumo à estação. Naquele momento, faltavam 15 minutos para o comboio partir. Entretanto, no percurso até ao carro, a embalagem contendo as caixas de DVD rompeu-se. Imagine-se! O que obrigou a uma recolha caricata no meio do trânsito. Já no carro, começou uma corrida louca até ao comboio. Que contou com uma troca de mimos com um taxista num semáforo, várias ultrapassagens impossíveis, um desesperante camião de recolha do lixo pela frente, etc. Por fim, chegámos. Exactamente em cima da hora. A custo, "teletransportei-me" com a bagagem até à linha respectiva, rogando algumas pragas pouco recomendáveis a pessoas sensíveis. Só que, comboio nem vê-lo. Pelos altifalantes chegou então a canora mensagem, naquele som característico semelhante à celebre cena das "Férias do Senhor Hulot": por motivo de inundações, a circulação nessa linha estava suspensa. O transporte era assegurado por autocarros até à próxima estação. O meu já tinha saído, é claro. Lindo! Nesta altura, ultrapassados os limites do razoável, fui tomado por uma estranha impassividade. Telefonei ao meu irmão, contando-lhe o que se estava a passar. Deu meia volta e veio buscar-me. Não foram precisas mais do que meia dúzia de palavras. Dirigimo-nos à loja, manietamos o empregado e metemos-lhe a cabeça dentro da caixa dos parafusos. Ainda hoje estou para saber como os peritos forenses explicaram a existência, no seu estômago, de dezenas de objectos metálicos com 5mm de comprimento.

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sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Crimes exemplares - 9

Ao acordar, foi imediatamente tomado por uma nostalgia impossível de reconhecer. Aos poucos, numa manobra de diversão, concentrou-se no dia que tinha pela frente. Para ele, a esperança começava a ser um bem escasso, intermitente. Um adiamento de si própria. Foi então que a névoa se começou a dissipar, lentamente. Ao primeiro raio de sol, o quadro apresentou-se aos seus olhos de tal forma que quase vacilou: o mar. Era o apelo do mar, o apelo de um local sem memória. O epílogo luminoso do desconhecimento de si mesmo. O cume onde tudo haveria de arder, numa festa pagã. As nuvens dissolveram-se completamente. Era o mar à sua espera, a memória fora da carne, a memória que nada sabe de si própria. Afinal, era tão simples: agora ele era o rio que iria percorrer o seu caminho natural. Nada mais. Mas agora não havia tempo a perder. Deixou alguns recados. Vendeu a colecção de miniaturas. Doou a biblioteca à escola local. Fez alguns telefonemas. Um deles para o local de trabalho, dizendo que ia de licença de parto. Pensaram que tinha enlouquecido. Por fim, compôs uma improvisada bagagem e fez-se ao caminho. Era o início da grande viagem. Sem partidas falsas. Aquela cuja conclusão é incerta, aquela cujo olhar inventa e nos inventa.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Crimes exemplares - 7

Fui a essa repartição uma e outra vez para tratar dos terrenos que o meu avô me deixou. Havia sempre mais um rendilhado da infindável trama requerimental que me era exigido. Foi então que comecei a dormir mal. Tinha pesadelos violentos. A simpatia forçada e a condescendência que era forçado a exibir estavam a esgotar as minhas forças, a esgotar o tutano da minha dignidade. A pior situação era quando me davam a entender que a "licençazinha" estava encaminhada e depois voltava tudo atrás. O movimento era circular e aparentemente eterno. Tão agradecido estava a esta linearidade ocupacional que a demonstrei ao chefe da repartição. Numa brumosa tarde de Inverno, após ter esperado que saísse do serviço, fui ter com ele. Mantendo o sorriso, encostei-lhe a lâmina ao pescoço e fi-lo engolir, um por um, todos os papeis que ainda restavam do que me tinham obrigado a preencher para o "bom andamento do assunto". Ao terceiro, deixou de espernear. Pelo silêncio que se seguiu, não era difícil adivinhar que o pedido fora finalmente deferido.

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sexta-feira, 28 de julho de 2006

Crimes exemplares - 6

Nessa manhã, parecia que uma improvável conspiração tinha remetido todos os meus gestos à inutilidade, à insignificância, à esfera do risível. Apetecia-me desaparecer sem deixar rasto, deixando uma tabuleta Volto Já para enganar os tolos e os repórteres. Abracadabra! Foi no supermercado que a coisa se deu. Estava na secção das frutas. Às tantas escorrego não sei em quê e caio no chão, com estrondo. Juntou-se imediatamente um coro de gargalhadas à volta. As mais irritantes vinham da empregada que estava nas pesagens, ao que juntava certas graçolas para quem quisesse ouvir. Mas era a voz, uma voz aguda e estridente, o que mais odiei. Recompus-me. Agarrei num coco e fiz pontaria à testa. Caiu redonda no chão, conseguindo-se ainda ver, por momentos, as cuecas às bolinhas.

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domingo, 2 de julho de 2006

Crimes exemplares - 5

Gosto muito de cinema. Mais filmes de acção, alguns a puxar para o sentimental. Desde que haja pancadaria e amores trocados, lá estou eu! Antigamente ia ver as fitas com a Paulinha "ruiva", na altura a minha namorada. Sempre de mãos dadas. Uma vez, durante o intervalo, aviei o Silvino com dois crosses, só porque fez um aparte rasca sobre as pernas dela.
Ora bem, aqui há uns meses aconteceu aquilo. Ah, não sei se já vos disse, mas detesto duas coisas: qua façam comentários fora de tempo durante as fitas e que me calhe um cabeçudo na fila da frente. Naquela noite ia ver, pela quinta vez, o "Casablanca". Aquilo sim, é que era um filme! Até já sabia algumas cenas de cor e salteado. Só que, na cadeira da frente sentou-se um sujeito que parecia uma torre. Pra chatear ainda mais, era ele sempre a mexer-se no assento, a coçar o cu ou sei lá o quê. E não parava de fazer comentários alarves por dá cá aquela palha. Numa cena em que estava a Ingrid Bergman em grande plano, o tanso gritou: "andas a pôr os palitos ao outro, sua badalhoca!". Não aguentei mais. Saquei da navalha que tinha no bolso e espetei-lha bem na garganta. Na assistência, houve quem se tivesse rido dos soluços dele, até esticar. Se calhar, pensavam que tinha a ver com o filme! Idiotas!
Amanhã vão-me dar as tais injecções. "Vais ficar de vez sem a tosse ", disse-me um guarda durante a revista. Não importa. Espero que haja matiné.

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segunda-feira, 26 de junho de 2006

Crimes exemplares - 4

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta quanto eu...

Quando finalmente acordou, só viu escuro à sua volta. Bateu, bateu, nada. Mas era estranho: os ruídos quase imperceptíveis que vinham do outro lado eram-lhe familiares. Conseguiu distinguir o relógio de cuco, a campainha da porta, o telefone a tocar, a 4ª sinfonia de Mahler que o Zé Tó tanto gostava, enquanto na mesa de trabalho dava os retoque finais no seu último projecto. Nos últimos tempos, falava entusiasticamente sobre o que ele chamava "arquitectura viva". Bateu com mais força. Começou a gritar por socorro, num pânico descontrolado. Mas as espessas paredes de betão não cediam nem um milímetro. Ao fim de algumas horas, esgotada, deixou-se cair na estreita faixa de solo, que, reparou então, não media mais de meio metro. Um pavor indizível começou a tomar conta dela, toldando-lhe os pensamentos. Ao mesmo tempo, um torpor desconhecido invadia-lhe o corpo, à medida que o oxigénio ia escasseando. Imagens soltas sucediam-se no seu cérebro, a uma velocidade vertiginosa. Até que uma espécie de véu de luz se abateu sobre ela, lentamente...

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sábado, 10 de junho de 2006

Crimes exemplares - 3

Menina estás à janela
com teu cabelo à lua.
Não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua...

Naquela noite de domingo, o feitor da Quinta das Rolas aproveitou o magnífico luar de Verão para desenferrujar as pernas. Um cheiro muito forte e indefinido estava a guiá-lo para os lados do solar do Côto. Um cheiro que ele bem conhecia, mas não tão intenso. Mal chegou, apercebeu-se de que o enorme portão de ferro estava aberto e, logo à frente, do que parecia ser uma cratera de uma explosão. Avançou. No centro, um vulto colado ao chão, rodeado de pedras que tinham sido derrubadas do muro. A coisa estava para quem tivesse sangue frio, como ele. Aproximou-se. O corpo estava desfigurado. A custo, lá conseguiu reconhecê-lo. Cruzes canhoto, era o filho do patrão! O que é que houve aqui?
Como toda a gente na aldeia, bem sabia que o solar era habitado pela única herdeira, cuja beleza só era igualada pelo mistério em que vivia. Segundo diziam, entre outras bizarrias, tinha a casa cheia de recordações de todo o tipo que o pai tinha trazido da guerra do Ultramar. Examinou o corpo. Do bolso interior do casaco retirou uma folha de papel. Ainda se podiam ler os versos, escritos à mão, para a sua amada...

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